Walter Salles prepara novo filme
Rui Martins
Agência Estado
Integrante do júri do 50º Festival de Berlim, Walter Salles acompanhou de longe a entrega de três prêmios, no Brasil, para seu filme O Primeiro Dia, feito com Daniela Thomas. Eles venceram nas categorias Melhor Diretor e Melhor Roteiro e Melhor Ator do Grande Prêmio Cinema Brasil. O novo filme de Walter Salles começará a ser rodado em junho ou julho e vai ser baseado em um conto do albanês Ismail Kadare, refugiado em Paris. A seguir a entrevista concedida pelo cineasta
Agora você vai ajudar a dar prêmios, mas continua a receber. Ontem seu filme O Primeiro Dia, com Daniela Thomas, recebeu mais três prêmios...
O filme ganhou os prêmios de Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Roteiro. Eu acho que isso é um tributo ao talento da Daniela Thomas, porque esse filme foi feito paralelamente ao filme Central do Brasil. É um filme feito para a televisão francesa. Se não fosse toda a intuição, inteligência de Daniela, esse filme não teria sido possível. Foi ela que desenvolveu o roteiro, a história, escolheu os atores. Acho que esses prêmios são para ela. Acho também importante que se premie o talento brasileiro. Diversos países têm seus prêmios nacionais, não só o Oscar americano. Na França existe o prêmio Cesar, na Espanha, o Goya.. Acho ter sido uma boa coisa, essa do Ministério da Cultura de criar um prêmio para o cinema brasileiro.
Qual é sua sensação de, depois de ter sido julgado, julgar os filmes que passam em Berlim?
Voltar aqui dois anos depois dos prêmios para Central do Brasil é um pouco como voltar para casa. Berlim é um festival aberto às novas cinematografias e estar do outro lado me dá a possibilidade de tentar ser tão generoso como foram com a gente. Tentar gostar dos filmes e não secá-los simplesmente. Botar na frente os filmes que nos emocionaram.
O que acha do novo espaço do Festival?
O Festival se tornou mais orgânico e mais concentrado. E a possibilidade de relação com o público talvez seja uma das maiores qualidades do festival. Quando Central do Brasil foi mostrado em diversos cinemas se pôde medir o calor do público berlinense. E agora o público tem possibilidade de estar ainda mais perto dos filmes, já que há uma concentração geográfica em volta desta praça, de no mínimo 15 cinemas, todos passando filmes do festival.
Por que escolheu para próximo filme um conto de Ismail Kadare, escritor albanês refugiado em Paris?
Foi meu irmão, João, que me chamou a atenção para o livro de Ismail Kadare, Abril Despedaçado. Tinha se apaixonado pela história e tinha pensado em adaptá-la para sua estréia na ficção. Acabou não fazendo e daí fui eu quem me apaixonei pelo livro. Fiz uma adaptação rápida do conto e mostrei para o produtor Arthur Cohn, que também se encantou com a história. Acho que a história tem alguma coisa fundamental para o Brasil e também para o resto do mundo a recusa da violência. Eu me sinto interessado por isso, pela recusa à violência, de recusar puxar as armas, e esse livro fala desse tema. Fiquei emocionado pela qualidade da narrativa e a paixão e o desejo devem guiar as nossas escolhas naquilo que a gente faz no cinema. O filme vai ser feito em junho ou julho deste ano e estará pronto para o Festival de Berlim, Cannes ou Veneza do ano que vem.





