Há cerca de um ano a comissão organizadora do Festival de Cannes, à frente o presidente Gilles Jacob, se reuniu para preparar a festa dos 60 anos da mostra que acontece de 16 a 28 de maio próximo. Uma coisa eles decidiram logo de saída: nada de volta ao passado, de comemoração fúnebre ou de auto-congratulação. Nada que pudesse fazer do futuro alguma coisa intimidatória.
Para a equipe preparatória, os aniversários tinham também como definitivo que eles permitem reflexões e novos sopros de energia. Energia capaz de revitalizar as próprias estruturas do mais importante festival do mundo, para mais além deste ano simbólico. E entre as muitas idéias que já estão em fase de concretização prática, uma ficou latente, mas por pouco tempo: a reunião prática de artistas, especificamente aqueles que ao longo dos anos tiveram a virtude de fazer avançar o cinema enquanto arte. Aqueles que tiveram confiança em Cannes, e para quem Cannes sempre ofereceu retorno.
Em resumo, celebrar 60 anos de criação com uma...criação. Um filme, em uma palavra. Mas que espécie de filme? A idéia de um filme de esquetes não era nova, e a história do cinema fervilha de vinhetas mais ou menos bem-sucedidas. Neste caso particular de celebrar os 60 de Cannes, prevaleceu o consenso: reunir um grupo de realizadores, todos universalmente famosos, que representassem tanto seus países de origem como uma orgulhosa concepção de cinema.
Vindos de cinco continentes e de 25 países, foram convidados 35 diretores que vão revelar, em somente 3 minutos cada, seu atual estado de espírito inspirado pela sala de cinema. Estas duas restrições-imposições - o curtíssimo tempo de duração e o limite físico do local determinado - foram ao mesmo tempo desafio e promessa. Lembranças familiares, sonhos, explosões de risos e de emoções, gritos de sustos. Já se adianta uma série de encontros improváveis: o alemão Wim Wenders filmou no Congo, o taiwanês Tsai Ming Liang em Kuala Lumpur e o canadense David Cronemberg nos...banheiros dos cinemas. E Walter Salles? Bem, a contribuição dele é uma completa incógnita até o momento.
Não há nada, segundo o presidente Gilles Jacob, que caracterize uma escola de cineastas, mesmo que o conjunto revisite o coração da cinefilia. São individualidades que exprimem cada um sua orientação estética, poetas que capturam uma parcela do mundo e a trasfiguram. Nenhum deles soube como eram os fragmentos dos demais, nem mesmo as sinopses. Eles aceitaram descobrir tudo simultaneamente com os jornalistas no dia 20 de maio em Cannes, e com o público que assistir à exibição programada para o mesmo dia pela televisão francesa.
Foi pensando nesta variedade de culturas, de origens e de talentos que os organizadores das comemorações de Cannes 60 batizaram o longa-metragem de ''Chacun Son Cinema'', ou ''A Cada Um Seu Cinema''. Os diretores que assinam o filme são: Theo Angelopoulos (Grécia), Oliver Assayas, Raymond Depardon, Claude Lelouch (França), Jane Campion (Nova Zelândia), Youssef Chahine (Egito), Chen Caige (China), Michael Cimino, Ethan e Joel Cohen e Gus Van Sant (EUA), David Cronemberg (Canadá), Jean Pierre e Luc Dardenne (Bélgica), Manoel de Oliveira (Portugal), Atpom Egoyan (Canadá), Amos Gitai (Israel), Hou Hsiao Hsien (China), Alejandro González IÀárritu (México), Aki Kaurismaki (Finlândia), Abbas Kiarostami (Irã), Takeshi Kitano (Japão), Ken Loach (Reino Unido), Nanni Moretti (Itália), Roman Polanski (Polônia), Raoul Ruiz (Chile), Walter Salles (Brasil), Elia Suleiman (Palestina), Tsai Ming Liang (Taiwan), Bille August e Lars Von Trier (Dinamarca), Wim Wenders (Alemanha), Wong Kar Wai (Hong Kong) e Zhang Yimou (China).

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