Walter Salles elogia premiação brasileira; novo filme será baseado em conto de Ismail Kadare
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domingo, 13 de fevereiro de 2000
Por Rui Martins 
Berlim, 14 (AE) - Integrante do júri do 50º Festival de Berlim, Walter Salles acompanhou de longe a entrega de três prêmios, no Brasil, para seu filme "O Primeiro Dia", feito com Daniela Thomas. Eles venceram nas categorias Melhor Diretor e Melhor Roteiro e Melhor Ator do Grande Prêmio Cinema Brasil. O novo filme de Walter Salles começará a ser rodado em junho ou julho e vai ser baseado em um conto do albanês Ismail Kadare, refugiado em Paris. Agência Estado - Agora você vai ajudar a dar prêmios, mas continua a receber. Ontem seu filme "O Primeiro Dia",com Daniela Thomas, recebeu mais três prêmios... Walter Salles - O filme ganhou os prêmios de Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Roteiro. Eu acho que isso é um tributo ao talento da Daniela Thomas, porque esse filme foi feito paralelamente ao filme "Central do Brasil". É um filme feito para a televisão francesa. Se não fosse toda a intuição, inteligência de Daniela, esse filme não teria sido possível. Foi ela que desenvolveu o roteiro, a história, escolheu os atores. Acho que esses prêmios são para ela. Acho também importante que se premie o talento brasileiro. Diversos países têm seus prêmios nacionais, não só o Oscar americano. Na França existe o prêmio Cesar, na Espanha, o Goya.. Acho ter sido uma boa coisa, essa do Ministério da Cultura de criar um prêmio para o cinema brasileiro. AE - É verdade que na filmagem do fim do ano havia balas de verdade, que passavam perto da equipe ? Walter Salles - Houve realmente um ou outro momento de tensão durante as filmagens da passagem do ano, mas a festa foi maior do que tudo e o prazer de estar ali filmando em tempo real foi o que ficou na memória. AE- Qual é sua sensação de, depois de ter sido julgado, julgar os filmes que passam em Berlim? Walter Salles - Voltar aqui dois anos depois dos prêmios para "Central do Brasil"é um pouco como voltar para casa. Berlim é um festival aberto às novas cinematografias e estar do outro lado me dá a possibilidade de tentar ser tão generoso como foram com a gente. Tentar gostar dos filmes e não secá-los simplesmente. Botar na frente os filmes que nos emocionaram. AE - O que acha do novo espaço do Festival? Walter Salles - O Festival se tornou mais orgânico e mais concentrado. E a possibilidade de relação com o público talvez seja uma das maiores qualidades do festival. Quando "Central do Brasil" foi mostrado em diversos cinemas se pôde medir o calor do público berlinense. E agora o público tem possibilidade de estar ainda mais perto dos filmes, já que há uma concentração geográfica em volta desta praca, de no mínimo 15 cinemas, todos passando filmes do festival. AE - Por que escolheu para pràximo filme um conto de Ismail Kadare, escritor albanês refugiado em Paris? Walter Salles - Foi meu irmão, João, que me chamou a atenção para o livro de Ismail Kadare, "Abril Despedaçado". Tinha se apaixonado pela história e tinha pensado em adaptá-la para sua estréia na ficção. Acabou não fazendo e daí fui eu quem se apaixonou pelo livro. Fiz uma adaptação rápida do conto e mostrei para o produtor Arthur Cohn, que também se encantou com a história. Acho que a história tem alguma coisa fundamental para o Brasil e também para o resto do mundo - a recusa da violência. Eu me sinto interessado por isso, pela recusa à violência, de recusar puxar as armas, e esse livro fala desse tema. Fiquei emocionado pela qualidade da narrativa e a paixão e o desejo devem guiar as nossas escolhas naquilo que a gente faz no cinema. O filme vai ser feito em junho ou julho deste ano e estará pronto para o Festival de Berlim, Cannes ou Veneza do ano que vem


