Uma coletiva transbordante. A mesma entrega e a mesma generosidade que permeiam o filme continuaram durante a entrevista coletiva. Assim pode-se definir a conversa que o diretor Walter Salles, os atores Gael Garcia Bernal e Rodrigo de La Serna (primo do verdadeiro Ernesto Guevara) e Alberto Granado mantiveram por quase duas horas com os jornalistas numa das salas do Unibanco Artplex, logo após a projeção.
Aos 83 anos e morando em Havana, o argentino (de Córdoba, o que segundo ele justifica o bom humor, dele e do personagem no filme) Granado é tão lúcido quanto engraçado ao recordar as andanças com ''El Fuser''. Para ele, Guevara não era o Che, mas o amigo inseparável, o companheiro de episódios hilariantes ou graves. Sobre o embrião do Che revolucionário, Granado acredita que o amigo já era uma exceção quando se recusava a mentir sobre qualquer coisa: ''Num mundo em que todos mentem, o fato de não mentir em nenhuma circunstancia já o definia como um revolucionário''. Para ele, não há como separar as coisas: ''O Che e a revolução sempre andaram juntos''.
Walter é um apaixonado pelos livros que estão na base de ''Diários'', tanto o de Ernesto quanto o de Granado. ''Para mim era um convite irresistível, tentar descobrir a identidade latino-americana. Em conversas com o Alberto - e antes de iniciar as filmagens eu, o Grael e o Rodrigo tivemos muitas horas de entrevistas -, o Granado nos disse que há 50 anos qualquer pessoa tinha muito mais conhecimento sobre etruscos e gregos do que os índios do Peru. Assim, tenho certeza de que, depois de um longo processo de preparação, tanto eu quanto os dois partimos de Buenos Aires para descobrir a que continentes pertencíamos. E hoje temos certeza de que quando chegamos ao fim definitivamente não éramos mais os mesmos. Para mim, ''Diários'' sempre foi um filme sobre a margem de um rio em que você quer estar - o que quero dizer é que o filme trata das opções que as pessoas fazem na vida''.
Quem também se entusiasma quando fala do filme é o Gael Garcia Bernal, a revelação de ''Y Tu Mamán También'' que interpreta Ernesto Guevara. Embora verborrágico e às vezes divagador na melhor tradição mexicana de Cantinflas, o ator fascina quem o ouve especialmente pela descrição detalhada de sua descoberta e entrega ao personagem. ''O jovem Che é alguém de quem sabemos muito pouco, muito menos do que o Che revolucionário. Por isso foi uma vivência única, chegar a construir um personagem com inúmeras cargas de responsabilidade. Foi um desafio, tratar de encontrar em mim coisas que compartilho - compartilhamos - com ele. O importante era colocar Ernesto na rota da busca. E se soubéssemos o que ele realmente queria logo de início, acho que não teríamos feito o filme. Dar vida a um personagem é crer. Contei com a sorte de ter um grande diretor, que sempre soube nos motivar, e de contracenar com um grande ator.
Na retaguarda de ''Diários de Motocicleta'' está o Instituto Sundance, que tem muito a ver com o sucesso de Walter Salles. Foi de lá que o roteiro de ''Central do Brasil'' saiu premiado, numa trajetória vitoriosa que incluiria o Urso de Ouro do Festival de Berlim. E foi novamente o Sundance, através de Robert Redford (produtor executivo de ''Diários''), que acelerou o processo. ''O filme é uma co-produção internacional, com capital inglês, francês e americano, embora todas as grandes companhias americanas tenham recusado financiamento. Foram 5 anos de preparação, 2 anos de roteirização, 2 de viagens retraçando o roteiro original. O Robert Redford foi essencial para que tudo saísse como planejado, inclusive com o filme falado em espanhol'', diz Salles.
O filme de Walter Salles estréia no Brasil no dia 7 de maio, serão distribuídas 70 cópias, Londrina não entra no circuito de lançamento.
(C.E.L.J.)

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