Walter Salles debate o apartheid social em seu novo longa: "O Primeiro Dia"
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quarta-feira, 27 de outubro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 28 (AE) - Os dois principais lançamentos desta semana permitem uma comparação interessante. De um lado, a brutalidade niilista e fake de "Clube da Luta". De outro, o humanismo de "O Primeiro Dia". Isso não quer dizer que não haja violência nesse novo longa-metragem de Daniela Thomas e Walter Salles. Pelo contrário. A violência é muita. E tanta que o espectador, por um momento, fica desejando que a história tenha outro final. Depois pensa melhor e concorda que um happy end, ali, seria descabido, tão estranho quanto uma máquina de costura em cima de uma mesa de operações. Como o tom do filme não é exatamente surrealista, isso não teria sentido. A não ser que surrealista, por um deslocamento de sentido, se aplique à realidade social brasileira. Esta, onde dois destinos estranhos um ao outro se cruzam num teto de Copacabana, durante um réveillon. De um lado, o bandido João (Luiz Carlos Vasconcelos), cujo passe para a vida é a morte de um amigo de infância, Francisco (Matheus Nachtergaele). De outro, uma mulher abandonada pelo companheiro, Maria (Fernanda Torres), que decide voar para o nada enquanto todo mundo comemora. Há algo de iluminador nesse encontro e nesse momento - e essa luz não vem apenas dos fogos do Hotel Méridien.
Basta pensar que uma das fontes do filme é o livro de Zuenir Ventura, "Cidade Partida", e outra, os artigos do psicanalista Jurandir Freire Costa sobre o índio pataxó Galdino, incendiado por jovens de classe média de Brasília. Livro e artigo falam do apartheid social brasileiro, do descaso com a vida alheia, do salve-se quem puder que é subproduto do individualismo, em sua forma superior, liberal. Estaria por aí a cabeça da serpente, a nascente do Nilo, a explicação mais razoável para o espanto de Vigário Geral, da Candelária, dos 111 do Carandiru, da Febem. Um artista que se leva a sério deve conduzir o olhar alheio para os pontos cegos do real. É para lá, para esse confronto um tanto terminal, que Daniela e Salles conduzem o espectador.
Por isso, também, o fugaz encontro entre os personagens de Fernanda e Vasconcelos não pode ser senão um momento de luz, beleza e intensidade - destinado a consumir-se rapidamente em si mesmo. Fosse de outra forma, seria idealizado, piegas, eticamente falso. Há, nos diretores, essa vontade religiosa de encontro, talvez de redenção, daí a profusão dos nomes bíblicos entre os personagens, Maria, João, Pedro, Franscisco. No entanto
trata-se de uma religiosidade exacerbada, que já não acredita em ascese a não ser por um duro exercício de expiação social. A violência, aqui, não é fim em si, como no filme norte-americano, mas sintoma de uma sociedade enlouquecida. É a febre, não a infecção. Dificilmente se acreditará que cineastas tarimbados ainda acreditem na função curativa, ou mesmo reformadora, da obra de arte. Parecem, no entanto, achar que a sociedade pelo menos merece conhecer as razões do seu sofrimento. É uma graça que não se nega aos doentes lúcidos, mesmo que seu estado seja muito grave.


