São Paulo, 11 (AE) - Uma dança de esculturas apresentada pela Cia. Ra Tame Ranz - cujo visual remete ao trabalho do grupo francês Ilotopie - abriu ontem (10) à noite no restaurante Cantaloup, em São Paulo, a festa de entrega do Prêmio Shell de Teatro para os melhores de 1999. O artista vencedor entre os quatro indicados - dois no primeiro semestre e dois no segundo - em nove categorias ganhou o troféu em forma de concha criado pelo artista plástico Domenico Calabroni - morto na semana passada e homenageado no evento - e um prêmio em dinheiro no valor de R$3,5 mil.
Pouco depois das 22 horas, o ator Sérgio Mamberti subiu ao pequeno palco e deu início à entrega dos prêmios. Num rápido e aplaudido discurso falou sobre "a ousadia e o atrevimento" de quem insiste em dedicar-se à cada vez mais difícil atividade teatral. E agradeceu o apoio da Shell, fundamental num País onde o poder público se exime de seu papel de fomentador da arte e os artistas dependem da iniciativa privada até mesmo para a conquista de novas platéias e o fortalecimento da dramaturgia nacional.
Em seguida, anunciou os primeiros premiados da noite, Daniela Thomas e André Cortez pela cenografia de "Pai". Generosamente, Daniela cedeu o microfone ao parceiro de trabalho
que agradeceu não só à experiente cenógrafa como ao diretor e "mentor" Antunes Filho. Surpresa - Ausente da festa em que foi premiado por "Fragmentos Troianos" na categoria diretor - a atriz Gabriela Flores representou-o no palco -, Antunes foi o mais citado nos agradecimentos. Vencedor do prêmio de melhor autor pelo ótimo texto de "O Fingidor", Samir Yazbek - depois de corrigir com bom humor o deslize do apresentador Mamberti que anunciou o prêmio para "o fingido" - retribuiu o prêmio com uma longa lista de agradecimentos. Entre eles, destacou o mestre Antunes - "a quem eu devo tudo ou quase tudo o que sei de dramaturgia".
Mas a grande - e grata - surpresa da noite ficou por conta da categoria ator, na qual foi premiado Walter Breda, por sua atuação em "A Arte da Comédia". Concorrendo com nomes de peso, como Raul Cortez, Antônio Fagundes e Luís Melo, Breda subiu ao palco emocionado. "Ser indicado tudo bem, mas vencer é uma coisa inacreditável", falou sob fortes aplausos. O talento do ator pode ser conferido no Instituto Goethe, onde ele está em cartaz com "A Que Ponto Chegamos", ao lado da atriz Ester Góes.
Fagundes foi o primeiro a abraçá-lo calorosamente em cumprimento pela premiação, seguido da atriz Suely Franco, que logo depois subiria ao palco para receber mais um prêmio - merecido - por sua atuação em "Somos Irmãs". Na categoria iluminação venceram David Brito e Robson Bessa por "Navegadores", da companhia Pia Fraus. Mamberti fez um intervalo na entrega de prêmios para uma homenagem a Décio de Almeida Prado, um dos indicados para a categoria especial, ao dramaturgo Plínio Marcos - ambos por suas contribuições fundamentais ao teatro brasileiro - e ao escultor Calabroni, os três mortos recentemente.
Na categoria figurino, Marcos Botassi foi o vencedor por sua criação para o divertido musical "Acordes Celestinos". Marcos Vinícius de Andrade e Dyonísio Moreno subiram juntos ao palco para receber o troféu pela música de Turandot, texto de Bertolt Brecht dirigido por José Renato. Elegantemente, Moreno ressaltou o fato de todas as composições terem sido criadas por Andrade. "Eu fui responsável pelas vinhetas, arranjos e direção musical".
Na categoria especial, pela qual concorriam Décio de Almeida Prado, J.C. Serroni e a Fraternal Cia. de Artes de Malasartes, grupo patrocinado pela Siemens, ganhou Ariela Goldman pelo seu trabalho de prepação corporal de atores. Depois dos aplausos finais com todos os premiados reunidos no palco, foi servido um jantar para os presentes: indicados e vencedores. Apesar do clima de confraternização - ou talvez até por causa dele, uma vez que a escolha do local, o confortável restaurante, propiciou o bate-papo entre os artistas -, o assunto na maioria das mesas era a ausência de uma política cultural de fomento às artes no País. (B.N.)

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