São Paulo, 02 (AE) - O ator Walmor Chagas retoma amanhã (03), em São Paulo, um dos principais desafios de sua carreira. Ao declamar os versos de Fernando Pessoa em "Passagem das Horas, às 21 horas, no Sesc Pinheiros, Walmor reassume a batalha pela devoção aos textos em língua portuguesa. "Precisamos assumir o poder do idioma", acredita. "O ator é o repositário da tradição oral e só pode exercer esta função em profundidade na própria língua."
Eis o motivo da escolha dos versos de Pessoa para iniciar o projeto "A Palavra em Cena", que o Sesc Pinheiros pretende levar todas as segundas-feiras, sob a coordenação de Mariangela Alves de Lima, crítica teatral. Nas próximas semanas virão o diretor Eduardo Tolentino e o ator Guilherme Santana.
"Retomo um desafio que me foi involuntariamente lançado por Ziembinski que, ao ouvir a sonoridade da nossa língua, dizia ser o Brasil um país de poetas, não de dramaturgos", conta Walmor. "Assim, decidi transformar em prosa o que é poético." A luz brilhou, na verdade, quando, em 1972, aos 42 anos, atingiu a maturidade artística ao mesmo tempo em que se descobriu diante de um impasse.
"Foi o momento em que decidi encenar Hamlet, de Shakespeare", lembra. "Até então, havia me preparado com o melhor do teatro mundial, com Eugene ONeal, Friedrich Durrenmatt, Edward Albee, que serviram como degraus até o ponto mais alto: Hamlet." O efeito, porém, foi devastador. "Coroei minha carreira e desmontei - descobri que ninguém pode ser trágico em tradução."
Por mais que tenha se preparado e concentrado, Walmor acreditou não ter atingido o grau máximo de Shakespeare pelas diferenças entre o idioma português e inglês. "O ator só pode atingir o auge em sua língua." Foi o bastante para diminuir suas incursões pelo teatro e aumentar na televisão, meio em que autores nacionais, como Lauro César Muniz e Dias Gomes, já se exercitavam.
As chateações atingiram um nível insuportável até que, em 1985, Walmor catou as obras completas de Joseph Conrad, um livro de Jung, fez a mala e embarcou, no Porto de Santos, em um cargueiro do Lloyd, com destino a New Orleans, nos Estados Unidos. Foi uma viagem diferente das que havia feito antes - não ia vasculhar teatros em busca de uma novidade para montar na volta. "Foi um tempo que dediquei aos meus sonhos e pesadelos"
conta.
Teatro dos sonhos - Em um deles, teve a visão que acreditou ser a indicação do novo rumo: viu-se diante do próprio teatro, que se chamaria Ziembinski. De volta ao Rio, vendeu dois apartamentos, comprou duas casas na Tijuca e construiu o Teatro Escola Ziembinski, onde privilegiaria a dramaturgia nacional. A experiência, porém, durou poucos anos: além da escassez de novos talentos, a maioria que surgia não tinha qualidade.
Também a pequena presença do público contribuiu. "Descobri que infelizmente não temos amor pelos nossos autores", comenta. "Só damos valor a Plínio Marcos e Nélson Rodrigues porque, apesar de ótimos dramaturgos, são exóticos." Walmor detectou também uma ausência de temas recorrentes à sociedade na maioria das peças nacionais. "O País parece não estar preparado para encarar sua classe média no palco, preferindo dramas europeus e americanos", observa. "Não temos mais a ideologia como havia nos textos do Vianinha e Guarnieri."
O ator anima-se ao observar algumas exceções, como os textos de Juca de Oliveira, que apontam o problema da corrupção, apesar do verniz de comédia. Ou ainda o trabalho de Antunes Filho frente ao Centro de Pesquisa Teatral (CPT), que prepara a nova dramaturgia brasileira a partir do surgimento de um "novo ator", que tenha pleno domínio da voz, do corpo, e possua, acima de tudo, uma ética.
Dos seus quase 70 anos (completa-os em agosto), Walmor Chagas passou 48 no palco. Um tempo considerável em um país em que a persistência é muitas vezes confundida com teimosia. Apesar de resistir à volta aos palcos (prefere cuidar da carreira musical da filha, Clara, que teve com Cacilda Becker, e de sua fazenda em Guaratinguetá), o ator está disposto a encenar textos nacionais. "Quero peças que tenham uma visão brasileira do mundo, que, não tenho dúvida, são de alta qualidade."

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