Wajda tem trajetória essencialmente política
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quinta-feira, 05 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 06 (AE) - A trajetória de Andrzej Wajda parece difícil de ser compreendida pela ótica contemporânea. Hoje, dificilmente se faz cinema politico. Não existe mais, na prática, essa figura do "cineasta político", o artista interessado, quase em regime de tempo integral, em utilizar sua ferramenta de trabalho para discutir as relações de poder da sociedade em que vive. Há Wajda, há Gillo Pontecorvo, Francesco Rosi, Costa-Gavras. Poucos nomes. Elio Petri, outro do clube, se foi em 1982.
São homens que sofreram na carne as vicissitudes históricas de um continente belicista e pouco disposto ao diálogo. Wajda participou ativamente da "dura ordem das coisas", antes de tentar modificá-las com auxílio da arte, lutando na Resistência durante a 2ª Guerra Mundial. Depois de encerrado o conflito, estudou pintura na Academia de Belas-Artes de Cracóvia. Lá, alinhou-se à Juventude Socialista, facção à esquerda do regime comunista oficial, instalado pela partilha de Ialta, depois do encerramento da 2ª Guerra.
No começo dos anos 50, frequenta a mitológica Escola de Cinema de Lodz (a mesma de Polanski, Kieslowski e outros). Faz alguns curtas-metragens e prepara terreno para uma ambiciosa trilogia em longa-metragem. Estes três filmes - "Pokolenie", "Kanal" e "Cinzas e Diamantes" - foram realizados entre 1954 e 1958. Representam um auto-retrato. Mas, principalmente, um painel da geração que lutou na guerra, viu o país devastado, depois reconstruído sob a esperança do socialismo e, enfim, paralisado pela burocracia.
Formam um tríptico, em que cada unidade é diferente das outras e indica um movimento interno do realizador. "Pokolenie" ("Geração") é tido como integrado ao regime. Adaptado de um romance de Bohddan Czeszko, conta a história de um jovem aproveitador que se acaba regenerando quando encontra trabalho em uma fábrica. Em "Kanal", o registro é diferente. Reproduz um episódio de guerra, no qual um grupo de combatentes foge pelos esgotos da cidade até ficar preso por uma grade inesperada. O tema é o heroísmo e seu sentido, mesmo quando a ação se revela inútil do ponto de vista prático.
"Cinzas e Diamantes" é a obra-prima da série. Sua ação se situa cronologicamente antes dos dois anteriores, em 1945, ano do encerramento da guerra. A ação é aquela que Wajda conheceu de perto: os últimos dias da Resistência, já no fim da guerra. No entanto, o grau de elaboração da trama, seu caráter histórico amplo (que dá sentido ao filme em si, mas também aos outros dois componentes da trilogia), faz com que se eleve a um nível superior ao simples relato. É cinema político, com status de arte, colocado a serviço de uma causa humanista. Quer dizer, Wajda é já um cineasta em pleno domínio do seu meio expressivo, mas também imbuído das idéias libertárias que fatalmente iriam chocar-se com o regime autoritário instalado na Polônia.
Essa posição ficaria mais explícita em dois dos seus filmes mais conhecidos, "O Homem de Mármore" (1976) e "O Homem de Ferro" (1981). Dois libelos anti-stalinistas, colocando em xeque diretamente o regime. Por isso ambos tiveram sérios problemas com a censura polonesa. Tanto assim que, para escapar ao cerco, Wajda realizou seu filme seguinte em co-produção com a França e escolheu para protagonista um personagem histórico francês, Danton.
Adaptação um tanto discutível, centrada mais nos conflitos do personagem do que no processo histórico da Revolução Francesa, Danton revela certa fragilidade dramática que não se espera de um mestre consagrado. Mas, enfim, ainda e sempre, continua um artista da política, recolhendo uma experiência histórica para esclarecer o presente. A revolução do século 18, que se perde e devora seus filhos, fala diretamente ao militante polonês que vê com desgosto os rumos tomados por uma política que se anunciara progressista.
Seu trabalho mais recente, "Semana Santa", mostra que Wajda continua seu trabalho de ativista. Fala, mais uma vez, do gueto de Varsóvia, que já abordara em "As 200 Crianças do Dr. Korczak", no início da década.
Essa persistência temática valeu a Wajda o rótulo de démodé, porque o cinema político teria perdido sentido na época da administração racional das coisas e dos negócios. Não é objeção para ser levada a sério. A política continua sendo exercida da mesma maneira; o que não existe mais são utopias que a tornem mais visível. Talvez este fim de milênio falsamente apolítico faça esse cinema de idéias ainda mais necessário. Isso porque a própria política é uma arte a ser reinventada.


