Wagner Tiso rege sinfônica no Rio; Milton Nascimento é o solista
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segunda-feira, 13 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 13 (AE) - Wagner Tiso aprendeu música ouvindo rádio, aperfeiçoou-se tocando em bailes. Tornou-se um dos maiores arranjadores da música brasileira. Com o tempo, e o conhecimento, questionou os limites que separam a música popular e a clássica - em princípio as isolam em suas categorias. Tanto nos arranjos (especialmente os que escreveu para Milton Nascimento, seu companheiro desde o início, também aprendiz de ouvido e de bailes) quanto nos discos-solo, e nas composições, o questionamento é claro - melhor do que isso, a expectativa de transpor as barreiras realiza-se, em maior ou menor grau.
Wagner Tiso está lançando seu 27.º disco. O crossover do clássico ao popular é o tema explícito: "Debussy & Fauré Encontram Milton & Tiso (selo Visom). Foi gravado ao vivo, na Sala Cecília Meireles, no Rio, no dia 11 de setembro do ano passado. É o primeiro de uma pretendida trilogia. Outras aproximações virão.
Amanhã (14) , às 20 horas, no Teatro Municipal do Rio, Wagner rege a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), que terá como solista o cantor e compositor Milton Nascimento. É a primeira vez que Wagner rege a OSB, embora sua experiência com grandes orquestras venha de longa data. Os ingressos estão à venda na bilheteria do teatro, com preços entre R$ 20,00 e R$ 50 00.
"Em Debussy & Fauré Encontram Milton & Tiso", Wagner escreveu arranjos (e sola à frente do) Rio Cello Ensemble. Transpôs as partituras originais dos autores franceses para o quarteto de violoncelos, formado por David Chew, Márcio Mallard, Hugo Pilger e Fernando Brú. Abre com o Prelúdio da Suíte Bergamasque", de Claude Debussy, segue com "Aprs un Rêve", de Gabriel Fauré, aproxima-os de seu próprio "Choro de Mãe" - e é como se o prelúdio e o depois do sonho ganhassem a dolência de um despertar suburbano, uma cadência de andar em ruas calçadas de pedras.
Quando ouviam rádio, em Três Pontas, interior de Minas Gerais, os meninos Wagner e Milton não conseguiam sintonizar bem as estações. O som era péssimo. Alguns acordes se tornavam indecifráveis. Para um e para outro, foi ótimo que assim fosse. Obrigaram-se a criar novas harmonias, para compensar o que não conseguiam entender. O rádio teve papel fundamental na carreira de músicos de baile - vinham de lá as informações. Os Beatles surgiram quando estavam se profissionalizando. Lennon e McCartney influenciaram o Clube da Esquina. Na via acidentada do crossover aparecem, teriam de aparecer, no disco de Wagner, que inventou uma intercessão: "Le Petit Négre avec Penny Lane", Debussy caminhando pela Liverpool psicodélica. Poderia estar na trilha de "O Submarino Amarelo. Aliás, George Martin, produtor e arranjador dos Beatles, lançou mão de recurso semelhante.
O espetáculo de amanhã não repete o disco. Mas não é o primeiro encontro de Wagner com a OSB. Há alguns meses, sua primeira peça sinfônica foi apresentada pela formação, sob regência do titular da orquestra, Yeruhan Scharovsky. Para esta terça-feira Wagner preparou arranjos especiais. Ao lado do amigo
companheiro de longos anos e parceiro, escolheu músicas do repertório de ambos, com ênfase no de Milton, mais vasto. Mas incluiu suas "Rapsódia Trespontana" e "Nascimento" - na gravação original de ambas, o solista era Milton. Será a primeira oportunidade de apreciá-las ao vivo. Ainda de Wagner, Rapsódia.
De Milton, estão no repertório obras como Tarde" (parceria com Márcio Borges), Canção do Sal" (com Fernando Brant), "Cais" (com Ronaldo Bastos) e peças do show (gravado em 1974, disponível em CD) "Milagre dos Peixes ao Vivo". Pelo menos um número não é de Milton ou Wagner: trata-se da canção "Beatriz", de Edu Lobo e Chico Buarque, feita para o Balé "O Grande Circo Místico", do Teatro Guaíra, de Curitiba. No disco com a trilha do balé, é Milton quem canta - uma interpretação definitiva - Beatriz".
O espetáculo dá apoio à estratégia da OSB de aproximar-se do público menos acostumado a ouvir música sinfônica. A obra de Milton Nascimento presta-se à aproximação, o trabalho de Wagner Tiso trabalha em direção semelhante. Por tudo, o concerto do Municipal tem o necessário para fazer-se inesquecível.


