Nascido em Três Pontas (MG), Wagner Tiso chegou a Belo Horizonte aos 16 anos e descobriu o jazz. Aos 18, mudou-se para o Rio e conheceu o samba. O CD ''Samba e Jazz - Um Século de Música'', que o pianista está lançando, é o retrato que o artista quando maduro pinta hoje dessas duas importantes fontes do seu trabalho. E é o encerramento de uma trilogia sobre suas influências, que já teve ''Debussy e Fauré Encontram Milton e Tiso'' (1997) e ''Tom e Villa'' (2000).
Além do ano de nascimento oficial - em 1917 foram lançados aqueles que se consagrariam como os primeiros discos de samba e jazz -, os gêneros têm em comum a origem negra e, como ressalta Tiso, a ''harmonia europeia'', proveniente da escola romântica.
''O samba, desde o início, com Pixinguinha, tinha um pouco da harmonia europeia. E (John) Coltrane, (Charlie) Parker, Miles (Davis), quando tocam o standard americano, aquilo é o romântico europeu tocado à maneira do negro americano'', diz Tiso.
Para ele, não há hierarquia entre os grandes músicos de jazz e sambistas autodidatas como Zé Keti e Nelson Cavaquinho, que são lembrados no CD em ''Opinião'' e ''Folhas Secas'', respectivamente. ''Eu acho Nelson extremamente sofisticado, assim como Zé Keti e Paulinho (da Viola). Não é que eles tenham estudado harmonia, mas têm esse sentimento harmônico.''
Marca da trilogia, o quarteto de cordas se mantém. Mas, agora, em vez de quatro cellos, são duas violas e dois cellos, para diminuir os graves. ''Sei que não se usam muitas cordas no samba e no jazz, mas eu uso'', demarca o músico. E também há improvisos, elemento central do jazz, mas pouco comum no samba. Wagner Tiso concebeu os arranjos sempre deixando algum espaço para a criação dos solistas.
Em ''Opinião'', por exemplo, Hermeto Pascoal toca flauta e um trompete feito com uma garrafa PET sem fundo. Nivaldo Ornelas usa sax-soprano em ''Naima'', de Coltrane. Paulo Moura improvisa de clarineta no par ''Inquietação/ É Luxo Só'', de Ary Barroso. Victor Biglione é o guitarrista em ''Tune Up'' e ''Solar'', de Miles Davis. O violonista Nicolas Krassik toca em ''Volta a Palhoça'' (Sinhô) e ''Folhas Secas''.
E o também solista Tiso evoca, no início de ''April in Paris'', o jeito de tocar de George Shearing, que, como ele, migrou do acordeom para o piano. E faz um medley-tributo a Bill Evans. ''Comecei a ouvi-lo em Belo Horizonte, ainda na adolescência. Eu baseei meu piano todo ouvindo Bill Evans. Foi o primeiro que me impressionou'', conta.

SERVIÇO
- Samba e Jazz - Um Século de Música
Artista - Wagner Tiso
Gravadora - Trem Mineiro
Quanto - R$ 25

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