Wagner Tiso comemora 35 anos de carreira tocando Tom e Villa-Lobos
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domingo, 11 de abril de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 12 (AE) - O maestro e compositor Wagner Tiso conseguiu realizar mais do que sonhava quando chegou ao Rio, há 35 anos, para tentar uma carreira como músico. Por isso, ele comemora a data com o Rio Cello Ensemble, tocando Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim, no Teatro Leblon, amanhã e quarta-feira
abrindo a série "Grandes Encontros". "Eu queria ser o Tom ou o Villa, compor músicas tão perfeitas como eles", explica Tiso. "Como não consegui, toco suas músicas".
Há alguns anos, ele visita as músicas dos dois compositores brasileiros mais consagrados e neste show o repertório será de canções. De Villa-Lobos tem "Caicó", "Trenzinho Caipira", "Modinha", algumas canções feitas para o balé "Floresta Amazônica" e uma fantasia que ele compôs sobre o Choro n.º 10. Tom entrará com "Eu Sei Que Vou te Amar"
"Chora Coração". "Pode haver ainda um pot-pourri das mais famosas se der tempo de fazer o arranjo", explica o maestro.
Se não fosse a iniciativa do violonista Marco Pereira de realizar uma série de shows em que músicos consagrados homenageiam compositores brasileiros, talvez Wagner Tiso nem comemorasse seus 35 anos de carreira. Não que faltem motivos, pois ele considera que o melhor de tudo que fez foi exatamente ter vindo para o Rio, depois de passar a adolescência tocando em bailes pelo interior de Minas em conjuntos cujo crooner, invariavelmente, era Milton Nascimento.
"Quando cheguei aqui, em 1964, queria acompanhar grandes cantores como Agostinho dos Santos, Cauby Peixoto e Ivon Cury e isso ocorreu no primeiro ano", lembra ele. "O que veio depois é lucro e não foi calculado". No balanço de sua carreira nacional, ele só lamenta a falta de tempo e dinheiro para estudar mais. "Tudo que aprendi foi no caminho", resume o maestro, numa frase que caberia bem numa letra de bolero ou samba-canção.
A comemoração coincide com uma volta ao início: Wagner fez os arranjos e a direção musical do disco Crooner, de Milton Nascimento, com músicas dos bailes do início dos anos 60. Os dois não trabalhavam juntos desde meados dos anos 80. "Milton sabia que só eu poderia fazer esses arranjos, iguais aos que tocávamos em Alfenas, Três Pontas (cidades do sul de Minas) e mesmo em Belo Horizonte", lembra Tiso. "Procuramos relembrar as músicas daquela época e o disco, é claro, é também dançante".
Nesses quase 15 anos, os dois se distanciaram. Milton tornou-se cada vez mais pop e Wagner se voltou para a música erudita. Compôs menos, embora tenha intensificado seu trabalho como arranjador. "O arranjo é parente da composição, pois quem faz orquestração está criando música nova também", justifica ele. Nesse veio, ele está lançando, em breve, um disco com o Rio Cello Ensemble, com músicas de Debussy e Fauré. Mas Tiso tem muitas gravações inéditas sem previsão de lançamento. "Hoje, as gravadoras não contratam por um tempo, mas compram projetos que a gente lhes oferece", justifica.
Outro braço importante da carreira de Wagner Tiso é a música para cinema e mais dois filmes saem ainda no primeiro semestre, O Toque do Oboé e Tiradentes. Normalmente, ele compõe em cima da imagem pronta, mas pode também acontecer o contrário. "É o caso de Walter Lima Jr. ou de Sílvio Tendler que, de vez em quando, pedem a música antes para dar o ritmo à cena", explica.
E foi exatamente uma canção feita para cinema que virou o grande hit de Wagner Tiso. "Coração de Estudante" havia sido composta para o filme "Jango", de Tendler, como tema instrumental. Milton Nascimento pôs letra e virou o hino da campanha Diretas Já, nos anos 80. "Foi tudo por acaso e não quis dar sequência a esse trabalho de compositor popular para não sair do caminho que havia traçado", diz. E qual seria esse caminho? "Experimentar sempre com várias formações e misturar todos os tipos de música", conclui o maestro.


