Vozes femininas no pop
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terça-feira, 06 de maio de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
No princípio, elas eram apenas groupies aquelas garotas que pulam de hotel em hotel colando nos músicos de rock durante suas turnês. Depois, passaram à frente dos palcos como vocalistas, algumas chegando a fundar suas próprias bandas. Hoje em dia, ninguém mais fala em ''invasão feminina'' de tão banal que ficou a atuação das meninas no pop.
Prova disso é o lançamento simultâneo no Brasil de CDs de Cat Power, The Cardigans, Saint Etienne, Belly e Siouxsie and The Banshees. A feliz coincidência abrange um panorama sonoro que vai de canções da década de 80 a repertórios recentes. Cat Power, codinome da cantora, compositora, guitarrista e pianista novaiorquina Chan Marshall, mostra seu novo disco de inéditas.
''You Are Free'' (Trama), seu sexto álbum, prima pela coerência. A garota continua arredia a qualquer concessão comercial apresentando 14 faixas intimistas de andamento vagaroso. Baladas de piano e voz, baladas agridoces, baladas amargas, baladas sussurradas, baladas para ouvir contemplando a tinta da parede reúnem-se aqui com acento folk.
''Good Woman'', o destaque do disco, combina voz, guitarra, cello, violino, coro de crianças e vocais irreconhecíveis de Eddie Vedder (do Pearl Jam). Ao lado deste, o líder dos Foo Fighers Dave Grohl também faz uma participação discreta tocando bateria em algumas faixas. Além das composições próprias, o disco inclui covers de John Lee Hooker (''Keep on Runnin'') e Michael Hurley (''Werewolf'').
Distante do apelo desolador de Cat Power, a banda sueca The Cardigans tenta depositar alguma melancolia em suas canções depois de emplacar músicas alegrinhas nas paradas mundiais. Seu novo álbum, ''Long Gone Before Daylight'' (Universal), foi saudado por alguns críticos como sinal de maturidade de Nina Persson e sua trupe.
Influenciado pelo alt-country (country alternativo norte-americano), o quinteto trocou as programações eletrônicas do disco anterior, ''Gram Turismo'', pelo instrumental acústico. Mas parece ter mudado apenas a embalagem das composições. As faixas se sucedem sem nenhuma inspiração, distantes do melodismo irresistível revelado no álbum ''Life'', aquele que trazia o hino indie ''Carnival''.
A faixa ''For What It's Worth'', uma das mais animadas do repertório, foi a escolhida para badalar o álbum. Não por acaso, é o destaque solitário do disco, que traz participação de duas estrelas da nova geração do rock escandinavo: Pelle Almqvist, do The Hives, e Ebbot Lundberg, do The Soundtrack of Our Lives.
Com mais temo de estrada, o grupo Saint Etienne é outro que desembarca nas prateleiras do País nesta temporada. Com a loira Sarah Cracknell nos vocais, o trio inglês chega com o álbum ''Finisterre'' (Sum Records) assumindo sem culpas o pop digestivo em 12 novas canções.
Formado por jornalistas, Saint Etienne explodiu com o hit ''Only Love Can Break Your Heart'', uma cover de Neil Young que foi estacionar no primeiro lugar da parada dance da Billboard em 1991. Mais de uma década depois, eles continuam fundindo melodias suaves com batidas para as pistas, como demonstram faixas como ''Action'', ''Soft Like Me'' (com participação da rapper Wildflower) e ''Shower Scene''.
Também surgida no começo da década passada, a banda Belly despontou como uma das maiores revelações dos porões alternativos norte-americanos numa época em que o ''grunge'' mandava as cartas no planeta pop. Liderada por Tanya Donely, recebeu aclamação de crítica e público com o álbum de estréia ''Star'', indicado para o Grammy em 1993. Naquela altura, Tanya já tinha currículo suficiente para levantar sobrancelhas de qualquer marmanjo metido a roqueiro.
Antes de fundar o Belly, ela já havia tocado no Throwing Muses e com as Breeders. A coletânea ''Sweet Ride The Best of Belly'' (Sum Records) revisita a curta trajetória de seu último grupo destacando algumas raridades e lados B de singles. Das 18 faixas, apenas duas aparecem como foram gravadas nos dois álbuns oficiais do quarteto.
O restante é material precioso para o fãs privilegiando versões remixadas, curiosidades (a versão em francês de ''Judas Mon Coeur''), covers (''Are You Experienced?'' de Jimi Hendrix, e ''Hot Burrito 1'' de Gram Parsons, esta última com apoio vocal de Juliana Hatfield) e inéditas (uma versão ao vivo de ''Dusted'' e a não lançada ''Lilith'').
Outra coletânea-retrospectiva que está chegando às lojas é ''The Best of Siouxsie and The Banshees'' (Universal), com o filé mignon da diva dos góticos. O CD abre com uma convincente versão de ''Dear Prudence'', dos Beatles, e atinge o clímax com a empolgante ''Cities in Dust''. Irregular, o disco repassa composições de 1978 a 2002, embutindo entre elas a inédita ''Dizzy''.
Rainha dos darks na metade da década de 80, Siouxsie recomendava retiros no cemitério trajando o habitual look ''acabei-de-sair-do-túmulo''. Depois foi apaziguando o pop soturno com incursões pelo indie dance, o etnopop e a eurodisco. A coletânea recapitula as várias fases da bruxa.


