Vozes femininas na poesia
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de março de 2014
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Uma narrativa da mitologia grega fornece o título à - salvo engano - primeira coletânea de poesia feita por mulheres em Londrina. O livro "O Fio de Ariadne" será lançado hoje, às 20h, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis como parte da 4ª Mostra Villanias, montada para abrir oficialmente a temporada 2014 da casa. O evento traz uma performance com dramatização dos poemas reunidos na obra.
Publicado pela editora Atrito Art, o livro reúne de quatro a cinco textos cada das poetas Samantha Abreu, Célia Musilli, Edra Moraes, Elisabete Ghisleni, Adriana Vitorino e Christine Vianna. Sai da gráfica com uma tiragem inicial de 250 exemplares. A produção visual é do designer Marco Tavares, com ilustração de capa da artista Daniele Stegmann. Hoje à noite estará à venda a R$ 15,00 a partir de amanhã a R$ 20,00, no local e na Livraria da Silvia. Um lançamento está previsto para o dia 12 de abril em São Paulo.
Christine, responsável pela Vila e pela organização do Londrix/Festival Literário, é a idealizadora da coletânea na qual publica pela primeira vez seus poemas ao lado da também estreante Adriana Vitorino. "Estava reticente em publicar meus textos até mostrá-los ao Marcos Losnak (poeta, editor da revista "Coyote" e crítico literário da Folha de Londrina), que me deu aval ao constatar coesão na minha produção", conta ela.
A professora e terapeuta Adriana, por sua vez, foi convencida a integrar a obra depois de participar de eventos literários promovidos no Cemitério de Automóveis. "Escrevo desde a adolescência mas nunca quis publicar porque não queria que ninguém lesse o que escrevia. Quando comecei a cantar meus poemas nos saraus, gostei de mostrar minha produção", revela.
Christine explica que o projeto foi juntar autoras "que circulam pela programação da Vila", sem a ambição de propor uma antologia abrangente da poesia produzida por mulheres na cidade. "Até por questões de orçamento, não daria para reunir todas as poetas de Londrina", assinala. Embora ressalte o perfil modesto da iniciativa, ela acredita no pioneirismo da coletânea.
"Desconheço outro livro publicado anteriormente por aqui só com vozes femininas. Não encontrei nada na Biblioteca Pública. Também conversei com algumas pessoas e ninguém soube me dizer de uma publicação com essa proposta", diz. Samantha, o principal nome surgido na poesia londrinense nas duas últimas décadas, salienta que a obra "traz a intenção de mostrar os opostos de sensibilidade e força na poesia feminina. Essa é a referência, inclusive, no nome do livro com a Ariadne, personagem da mitologia".
Célia Musilli, cronista dominical da Folha de Londrina, observa que a coletânea "é resultado de quase uma década da realização de saraus literários, uma experiência literária importante que andava esquecida". Segundo ela, a programação do Cemitério de Automóveis proporcionou tais encontros, com presença majoritária de mulheres. "Lá começamos a ler nossos próprios poemas ou poemas de outros autores", sublinha.
"Houve inclusive saraus temáticos, como o `Mulheres de Leminski´. Houve também saraus improvisados que ficaram bem interessantes. Era legal entrar pela noite lendo poemas, em vez de apenas beber e conversar sobre literatura. Ler poesia em voz alta é importante, forma um público com ouvidos para uma arte delicada cujo principal apelo é a palavra".
Célia participa da coletânea com três poemas inéditos e dois já publicados em seu livro "Todas as Mulheres em Mim" (2010). Morando atualmente em Campinas, ela estará ausente hoje no lançamento, assim como Elisabete. As demais participam da performance poética que contará com projeções e um cenário formado por aquarelas e tecidos.
Serviço:
Lançamento do livro "O Fio de Ariadne"
Quando: Hoje às 20h
Onde: Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A)
Entrada gratuita
Informações: (43) 3344-5998 ou 8409-8882
Fenda
Deus me olha
Estou de óculos escuros
O amor
Desce
As vendas
Cura
As fendas
(Adriana Vitorino)
Naufrágios
O coração venceu as geleiras do Ártico. Rebelde, abre as guelras e respira entre escamas de prata. O coração sobrevive com apenas três bolhas de oxigênio. Ondula onde o sal decanta e as algas se esgarçam. Do tanque oriental salta o poema do jardim dos fundos. Princípio de koan num fluxo enigmático. No seio trago pérolas, sílabas, ilusões de superfície. A mil léguas escondo o náufrago, um mundo de pirataria, vestígios de trinta amores submarinos.
(Célia Musilli)
eu te queria num parto inverso
não em verso
parir-te, enfim,
para dentro de mim
(Edra Moraes)
Se amor é vício
te encontro no precipício
escuta bem
não esquece
vou te dizer ao pé do ouvido
fada era bruxa
príncipe era sapo
e há três coisas entre nós
que são um desacato:
riscos na madrugada
teu cheiro no corredor
a outra não lembro
mas se amor é vício
(te) encontro no precipício.
(Christine Vianna)
C h o v e u...
choveu em tudo o que é meu
e a diferença é que
feito amor
há tanto jeito de sonho
eu não tenho a noite inteira pela frente
tenho sim
um milhão de dúvidas
por que será que na vida
só tem caminho de ida?
(Elisabete Ghisleni)
Guerrilha
A gente finge que sente o que gostaria de sentir se não fingisse.
Simulo que não, ele provoca o sim. Tem fácil acesso, nome na lista, ingresso vip. Entra, carrega as malas, todas as balas e todos os concordantes motivos. Ele me arranca os sorrisos, os suspiros. Arrasa todos os atinos.
Faz que não faz e desfaz a completa certeza do não.
E daí, já não sei já não importa: roupa, brincos e cordas. O banco de trás, o beco e o balcão, guerra indeclarável pelo território alheio. Língua na boca do outro e cerveja esquentando na mão.
Enquanto ele derrete, eu sua. Líquido e rubro amor que escorre.
Terra invadida que ferve por toda a veia que corre, briga no escuro, gangue de rua.
Antes do fim, a não morte do que arde. A não morte do que pega e invade.
(Samantha Abreu)


