Vozes dos anos 90
Qual é a marca da poesia produzida nesta década? Há uma tendência, escola ou estilo predominante? Quais são seus autores mais representativos? Que traços os distinguem das gerações anteriores?
Perguntas como essas, que já dominavam alguns círculos, deverão se intensificar nos próximos meses para um público mais amplo com a repercussão do livro Esses Poetas - Uma Antologia dos Anos 90, de autoria da pesquisadora carioca Heloísa Burque de Hollanda.
O lançamento inaugura a editora Aeroplano e desembarca nas prateleiras simultaneamente à reedição de 26 Poetas Hoje, célebre antologia publicada por Heloísa há mais de vinte anos e que virou citação obrigatória em qualquer conversa sobre poesia marginal.
É a vez do poeta letrado - anuncia ela no texto de apresentação. Seu perfil é o de um profissional culto, que preza a crítica, tem formação superior e que atua, com desenvoltura, no jornalismo e no ensaio acadêmico marcando assim uma diferença com a geração anterior.
O mapeamento, salienta ela, não pretende identificar a poesia em termos geracionais ou do período em foco mas apenas ressaltar algumas afinidades eletivas. O critério inicial foi reunir nomes que começaram a publicar a partir de 1990.
Pela peneirada passaram 22 autores, entre os quais figuram o londrinense Rodrigo Garcia Lopes, a curitibana Josely Vianna Baptista, o músico pop paulistano Arnaldo Antunes e os elogiados cariocas Carlito Azevedo e Claudia Roquette-Pinto.
Na introdução do volume, Heloísa examina o pano de fundo da época, o mercado editorial, a proliferação de novos formatos para a difusão da poesia, o rigor técnico e formal dos atuais poetas em contraposição ao desleixo da geração-70, o declínio das querelas literárias e a impossibilidade de extrair um perfil da pluralidade de vozes que constitui o panorama poético contemporâneo - especialmente devido à atuação cada vez mais ampla de mulheres, negros, judeus e gays no metiê.
É uma poesia preocupada apenas em encontrar a própria voz - escreve ela. Tudo indica que, enfim, conquistou-se a liberdade de se experimentar fora das plataformas e políticas poéticas, sem traços - pelo menos aparentes - de culpa. Mais adiante, afirma: Em vez de fechar possibilidades, o poeta agora compromete-se com a ampliação de seus recursos de expressão, tornando esse compromisso a marca e o avanço da literatura anos 90. O novo, mais uma vez, é a originalidade na articulação, a afirmação de um desempenho competente e a reinvenção experimental e criativa da tradição literária.Esses Poetas - Uma Antologia dos Anos 90: pluralidade de vozes marca a poesia jovem brasileiraNelson Sato





