Vozes divina
Jackeline Seglin
De Londrina
Na quinta-feira comemora-se o dia do Cantor Lírico, um ofício que exige técnica, conhecimento e sensibilidade. No Brasil, como explica a mezzo-soprano Denise Sartori, essa arte ainda não teve seu valor totalmente reconhecido
A arte que fez de Jessye Norman, Montserrat Caballé, Kiri Te Kanawa ou Maria Callas referências mundiais está assinalada no calendário. Pelo menos no calendário cultural. O dia 22 de julho, quinta-feira, marca uma data especial para os cantores de ópera - aliás, pouco conhecida dos brasileiros. É o dia do cantor lírico, figura que muitas vezes passa despercebida em seu próprio país e acaba ganhando respeito e sucesso no exterior.
Para falar do assunto, ninguém melhor do que quem está diretamente ligado à situação. A mezzo-soprano dramático Denise Sartori, de Curitiba, vem desenvolvendo uma promissora carreira no canto lírico. Em entrevista à Folha2, ela fez uma avaliação do gênero no Brasil. É muito bom cantar ópera. Às vezes as pessoas não gostam porque não conhecem. Mas é uma arte fantástica. Nós temos que ser atores, que mostrar através da nossa intenção vocal e do nosso corpo a história de pequenas canções, revela.
Professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, a cantora venceu vários concursos, entre eles, jovem solista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, Torneio Internacional de Cantores (representou o Brasil na China) e Concurso Nacional Pavarotti (foi a única brasileira a participar em 92 do Gala Concert, no Philadelphia Opera Theatre).
Denise Sartori é mestre em canto pelo Royal Northen College of Music, na Inglaterra. Ela esteve em Londrina participando do 19º Festival de Música, onde ministrou aulas de canto para alunos de várias partes do Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual sua avaliação sobre o canto lírico atualmente no Brasil?
O canto lírico fica um pouco restrito ao Rio de Janeiro e São Paulo - acredito que é onde tenha mais dinheiro e onde as pessoas também tenham uma tradição maior. Infelizmente aqui no Paraná o canto lírico hoje é quase nulo.
No Brasil não é mais difícil desenvolver esse trabalho?
Desenvolver sim, porque faltam escolas completas de canto. Às vezes você tem um bom professor de técnica, mas não tem uma base sólida em línguas. A gente tem de cantar em todas as línguas. E tem também a questão da diferença dos estilos. Na Inglaterra, as pessoas se preocupam muito isso. Se você vai cantar música barroca, vai cantar com música barroca. Aqui a gente canta o que aparece e as pessoas não se preocupam muito com estilo.
Mas há outras dificuldades?
Eu acho que falta mais interesse das pessoas para a boa música. Hoje em dia, infelizmente, existe no País uma corrente muito grande se afastando do que a gente considera uma música de qualidade. A música está muito comercial. Devia haver mais incentivo e as pessoas deveriam conhecer mais para gostar.
Você acha que eventos específicos - como Festival Amazonas de Ópera - são exemplos de um novo rumo no canto lírico no Brasil?
Não só este, como o Festival de Música de Londrina. Aqui tem tanta gente de fora, professores que vêm trabalhar com pessoas que jamais abriram a boca para cantar. E não só gente do Sul. O Brasil tem potencial no país inteiro.
A dedicação é uma caraterística forte do canto lírico. Vocês fez vários cursos em busca de aperfeiçoamento. Fale um pouco dessa trajetória.
Eu procurei aumentar a qualidade do meu trabalho. Saí do País, fui para a Inglaterra fazer uma especialização, e acabei por fazer o mestrado também. A gente volta com uma bagagem muito grande, com uma visão totalmente diferente.
A cantora lírica precisa desenvolver o lado atriz. Como você se prepara para levar isso para o palco.
Para mim é fácil, eu acho que tenho o teatro dentro de mim desde menina. Mas vai muito da emoção. Você se coloca num papel, vive uma vida que não é tua. E isso é o mais gostoso, porque você consegue ser várias pessoas.
Com que papéis você mais se identifica na ópera?
Eu gosto de todos. Adorei fazer Rosina (O Barbeiro de Sevilha), com aquele lado infantil que todo mundo tem, Carmen (da ópera de Bizet), um lado sensual, meio maldito, a Amneris (Aída), um lado austero...
Algum que tenha vontade de fazer?
Tem um monte. Eu queria fazer a Zita (Gianni Scchichi), a Dalila (Sansão e Dalila), vários outros. Eu gosto de papéis cômicos.
O canto lírico demanda muita técnica. Como é que fica a emoção?
Não existe uma separação. Sem técnica não se faz nada e nem sem emoção. É a mesma coisa de você ir a um concerto e assistir a uma técnica perfeita. Puxa, que bonito! Mas sai do teatro como entrou. Vazio.
A prática do canto lírico também exige muita preparação e cuidados básicos.
A gente tem de estudar - e estudar muito - não pode nunca parar. O trabalho da técnica vocal é muscular. É como fazer musculação: se parar por dois meses perde o tônus e tem que começar tudo de novo. Não existe uma receita. Cada ser humano é seu próprio instrumento. O corpo é a coisa mais importante para o cantor. Nós temos que ter uma conexão geral com ele, saber o que está acontecendo dentro da gente para cantar com mais eficiência e prazer.
Além disso, há cuidados específicos com a voz?
Vai depender da pessoa. Eu não tomo gelado porque não gosto. Mas sou alérgica a vinho tinto e não tomo antes de cantar. O ideal é a hidratação, a gente tem de tomar muita água.





