São Paulo - Quem aprecia música já cansou de ver frustradas as expectativas nas cinebiografias de grandes astros (em forma de ficção realista ou documentário) pela opção de diretores, produtores e roteiristas por ''uma grande história de vida'', eufemismo para explorar o lado mais dramático e patético desses cantores, deixando a música como acessório alegórico.
'Elza', de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, que estreou ontem em algumas capitais do país, inverte a situação, colocando o dom artístico da cantora em primeiro plano, com leves pinceladas sobre as muitas histórias (e dificuldades) pessoais, como a fome e as inúmeras operações plásticas.
Não se trata de uma biografia de Elza, mas uma tentativa de decifrar o dom ''que aprimorou na própria vida'', sem escola, como observa Paulinho da Viola. Se no filme sobre Paulinho, Izabel tratou da relação do compositor com o tempo, o objeto de estudo em Elza é a voz dela, com depoimentos consistentes e encontros musicais de quem entende a personagem e tem importância na trajetória dela - como Caetano Veloso, José Miguel Wisnik, Hermano Vianna, João de Aquino, Maria Bethânia, Ricardo Cravo Albin, Paulinho, que também canta com ela.
''A gente se identificou com as explicações de Caetano e de João de Aquino sobre a capacidade de Elza se fabular, não queríamos nos perder na questão da história da vida privada dela, primeiro porque isso já é muito batido. Não estaríamos trazendo nenhuma novidade. Depois eu nunca sei o que é e o que não é'', diz Izabel.
Izabel e Ernesto tiveram o cuidado de ''preparar o ambiente'' para os encontros da cantora com os convidados, ''no sentido emocional, visual, estético''. ''Uma vez isso trabalhado, a gente deixava a coisa fluir o mais leve e improvisado possível.''
Outra peculiaridade são os duetos e o repertório de canções inéditas na voz de Elza, além de alguns clássicos em gravações, como ''Salve a Mocidade'' e ''O Pato''. Quando ela estreou maltrapilha no programa de rádio de Ary Barroso e foi alvo de gozação por parte do público (na era do rádio, lembra Cravo Albin, samba, preto e pobre eram inaceitáveis) subverteu a ordem de cara, arrasando no vocal roufenho.
E quanto à famosa ''raspada de garganta'', imitando sons de instrumentos de metais, Elza afirma que veio como aparece no filme: era uma espécie de ''gemido'' que emitia enquanto carregava pesadas latas d’água na cabeça morro acima.
Curiosamente, no final do filme há uma indicação de que ele foi ''baseado em fatos reais''. Elza conta que falou com São Jorge aos 5 anos, que teve de parar um show em Niterói por causa de uma invasão de discos voadores. ''Tudo na Elza é fantasia, é imaginação. E no fundo não tem a menor importância se aquilo é verdade ou não'', diz Ernesto. ''O que importa é o jeito com que ela conta, de que maneira ela vê as coisas e se coloca perante o mundo.''

mockup