Voz ativa
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de outubro de 2011
Geraldo Bessa <br> TV Press 
Cheio de humor e opinião, Miguel Falabella orgulha-se de ter a liberdade de expressão como lema. E garante que vai usar e abusar da ironia e espontaneidade de seu texto em ''Aquele Beijo'', novela das sete que estreia amanhã. O primeiro sintoma de autonomia na quarta novela de sua autoria é a decisão de não ficar trancado no escritório apenas escrevendo, mas também narrar os principais acontecimentos de seu folhetim. ''É uma oportunidade de dividir com as pessoas coisas legais que ouvi ao longo da minha vida'', explica o autor, diretor, escritor, apresentador e ator de 55 anos.
A carreira artística de Miguel surgiu a partir da atuação e foi adquirindo outras funções depois de sua estreia na tevê, como o Romeu de ''Sol de Verão'', em 1986. ''Tem uma hora que falta alguma coisa. Eu precisava dar vazão aos meus outros interesses. Mas faço tudo com o mesmo empenho'', ressalta o autor, criado na Ilha do Governador, subúrbio do Rio. Ao evidenciar sua personalidade multimídia, Miguel assume seu lado ''workaholic'' ao ter sempre mais de um projeto em mente, em uma carreira que já conta com 10 folhetins como ator e a autoria de produções como o seriado ''Sai de Baixo'', que estreou em 1996, as novelas ''Salsa e Merengue'', ''A Lua Me Disse'' e ''Negócio da China''.
Quando o seriado ''Toma Lá, Dá Cá'' chegou ao fim, você se dedicou ao teatro e, depois, escreveu a série ''A Vida Alheia''. O que o levou a querer escrever novelas novamente?
Ouvi uma frase, não me lembro onde, que era: ''quantas vezes você já teria cruzado com alguém sem se dar conta de que poderia ser o grande amor de sua vida?''. Sabe aquelas cruzadas ocasionais, na rua, aquelas esbarradas de olho, no ônibus, no trânsito? Aquela pessoa que poderia ser uma boa companheira, mas não foi feita especialmente para você. Se pensar muito que perdeu esse alguém, você é capaz até de cortar os pulsos. Eu fiquei muito tempo pensando nesse assunto e achei que seria algo legal de abordar em uma novela. Além disso, minha participação vai ser expandida. Além de escrever, vou narrar a história.
A última novela que contou com um narrador foi ''As Filhas da Mãe'', de 2001. O resultado não foi muito animador. O que o levou a apostar nisso?
A ideia de existir um narrador onisciente vem do fato de que o autor já manipula as personagens. Então, por que não explicitar isso para o público? Como narrador, mexo com as personagens como se elas fossem peças de um jogo e, assim, monto o painel da novela. Eu não conto a história, digo coisas. Acho que é a primeira vez que o autor narra sua novela. Em ''As Filhas da Mãe'', não era o Silvio narrando, era como se fosse um ''rapper''. Eu gostei do resultado, espero que as pessoas entendam esse tipo de construção - que não vai atrapalhar o eixo dramático. É apenas um charme e um trabalho a mais para mim.
E se não der certo?
Corro esse risco, mas não tenho medo de ousar. Se eu vivesse com receios, estaria na Ilha do Governador até hoje, né? (risos). Tem tudo para funcionar. O narrador vai refletir sobre coisas bonitas. Eu já brincava de fazer uma reflexão sobre alguns assuntos quando apresentava o ''Video Show'' e tinha uma resposta superpositiva das pessoas naquela época.
Suas novelas costumam ter personagens e temas envolvendo racismo e diferenças sociais, entre outros. Como você lida com a patrulha do politicamente correto?
Essa turma sem humor não tem vez comigo. Minhas novelas são brincadeiras. Sou vítima disso a todo momento, mas encaro com mais leveza, sem mexer no meu trabalho. Em ''A Lua Me Disse'', recebi inúmeros processos. Por causa das personagens negras que não se aceitavam, da índia que era maltratada, da criança que ficava presa na jaula. Por tudo. Foi um momento bem conturbado e as pessoas não aceitavam a interpretação de que aquilo é ficção.
Depois de problemas de audiência, ''Morde & Assopra'' entrega o horário das sete com média de 34 pontos no ibope. A responsabilidade é maior ao substituir uma novela de sucesso?
Não sou do tipo que vive neurótico com ibope, com índices. Tenho muitos compromissos e não dá para ficar perdendo tempo com isso. A única verdade desse mundo é que, atrás de uma novela, virá outra e que ''Aquele Beijo'' vai passar e no futuro, provavelmente, estaremos aqui fazendo a entrevista de um outro trabalho. Só faço novela quando tenho prazer pessoal e tenho sentido isso com este trabalho. Gosto dos personagens, de escrever cada dialogo. Sei que ''Morde & Assopra'' está dando boa audiência e é claro que isso aumenta minha responsabilidade. Mas não há motivos para o público não gostar de ''Aquele Beijo''. Está tudo bem feito. Mas estou preparado para tudo.
Você é o tipo de autor que acompanha todo o processo de produção da novela?
No começo, eu vou para o estúdio ver se está tudo certo, tudo no tom. Acho importante o tom dos atores com o texto, principalmente aqueles que nunca trabalharam comigo. Se você pegar um capítulo meu, vai ver que meu parágrafo é muito diferente, com uma sintaxe própria. Às vezes, o ator não entende. Faz do jeito dele e não funciona. Alguns já sabem muito bem o que fazer, como a Cláudia Jimenez. Ela sabe as entonações, sabe como meu texto funciona da melhor forma.
Além da Cláudia Jimenez, o elenco de ''Aquele Beijo'' é composto por muitos atores que já trabalharam com você anteriormente. Essa escolha torna o processo de trabalho mais fácil?
Não facilita e nem dificulta. É uma questão de prazer mesmo. As pessoas falam de panelinha, mas não é panelinha. Ao longo da carreira, a gente descobre que tem falanges artísticas. É a turma! Pessoas que acabam se buscando de alguma forma. A turma acaba se encontrando e nós vamos nos agrupando em falanges dentro desse planeta. Então, eu trabalho sempre com os mesmos atores. Ou com a maioria deles, porque eles me entendem. Não são só os atores que eu repito. Estou rodeado de amigos de uma vida inteira. Basta imaginar que o responsável pela minha entrada na televisão é o Roberto Talma, diretor de núcleo de ''Aquele Beijo''.
''Aquele Beijo'' - Globo - Segunda a sábado, às 19h10.


