A cantora Andréa Daltro, de formação lírica, lança dois discos admiráveis
ReproduçõesAndréa Daltro resgata a musicalidade brasileira em um dos discos recém-lançadosA soprano baiana Andréa Daltro é o principal destaque de ‘‘O Outro Lado da Bahia’’. São dela os dois mais vigorosos lançamentos. A começar por ‘‘Século XX começou Assim’’ em que a cantora – de timbre delicado – oferece seus préstimos a singelezas que inauguraram estilos na música brasileira entre o final do século passado e o começo deste. E tome polca, lundu, valsa, maxixe, tirana, corta-jaca e modinha (que teria sido o primeiro gênero genuinamente brasileiro.
No CD, há obras já incrustadas na memória nacional como ‘‘Casinha Pequenina’’ (Domínio Público, com origem detectada no Rio de Janeiro) e a polca ‘‘Flor Amorosa’’ (Catulo da Paixão Cearense-Antônio Calado). Estão lado a lado com preciosidades que formam a gênese do cancioneiro popular brasileiro, entre elas a tirana ‘‘Minha Maria é Bonita’’ (letra de Castro Alves e música de Xisto da Bahia) ou mesmo a modinha ‘‘Ária à Laranjeira’’ (Henrique Eulálio Gurjão.
No entanto, a sobriedade camerística que permeia o disco é quebrada momentaneamente pela interpretação brejeira de Andréa em ‘‘Boca Pintada’’, um maxixe delicioso. Por se tratar de um produto concebido também sob a ótica didática – a seleção de repertório, por exemplo, contou com a colaboração da pesquisadora Conceição Perrone –, os diversos estilos estão resumidamente explicados no encarte do CD.
Se é para apreciar toda a potencialidade da voz cristalina de Andréa Daltro, é melhor ouvir o disco ‘‘Ave-Marias’’ que congrega composições populares e eruditas feitas para revenciar a mãe de Jesus. Nesse trabalho, Maria é evocada de todas as formas – e em todas, respeitosamente. Seja através das Ave-Marias de Charles Gounoud ou de Franz Schubert – as mais evidenciadas – ou mesmo na obra de Tomas Luis de Victoria em que ocorre o encontro de vozes de Andréa com a dos monges do Mosteiro São Bento (BA).
Como não admirar um achado fantástico que é ‘‘Encontrei Senhora’’ (recolhida por Mirna Brito) em que Maria santíssima aparece como uma mulher tão humana quanto outras marias espalhadas pelo Brasil. E Andréa, a capela, canta versos admiráveis vindos da alma popular: ‘‘Encontrei Senhora na beira do rio/ Lavando os paninho do seu bento fio/ Senhora lavava, José estendia / Menino chorava do frio que fazia/ Não chore meu menino, não chore meu amô /A faca que corta dá golpe sem dô / O filho do rico no berço dourado/ Jesus pequenino em palhinha deitado.’’ ‘‘Ave-Marias’’ é mais que um disco de louvor; é um trabalho sincero e comovente. (A.M.J.)

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