Vou de diva a prostituta
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de agosto de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
A temporada de Master Class, em que Marília Pêra brilha em cena como Maria Callas, se encerra por definitivo dia 21 de setembro em Porto Alegre, cinco dias antes de se completar 20 anos da morte do soprano, em seu apartamento em Paris. Para março de 1998 está prevista a estréia no Rio de Janeiro de Toda Nudez Será Castigada, a contundente peça de Nelson Rodrigues.
Vou de diva a prostituta, disse Marília em Curitiba. A montagem foi adiada devido ao sucesso de Master Class. A mudança de datas talvez impossibilite a presença de Gracindo Jr. no papel de Herculano, amante de Geni. No mais está tudo certo: André Valle fará o irmão de Herculano e Leon Goes será Serginho, filho de Herculano. A direção estará a cargo de Moacir Goes.
Marília Pêra está sempre indo de encontro ao vasto mundo feminino, às mulheres que se cobrem de sedas a tecidos vagabundos, mas sempre com a solidão rondando por perto, mesmo na pele de uma professora chamada Margarida, que foi um terror nos anos 70 (ela era a própria ditatura militar) e mais amena, quase soft nos anos 90.
Ser Maria Callas, menina sofrida e renegada que se impõe perante o mundo, é como se colocasse em sua carreira mais uma cantora que a vida matou. Callas, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda: as três foram assassinadas pelas qualidades que possuíam e pela inveja que causavam.
Parece uma lei: estar em evidência desperta rancores. Inconscientemente a imprensa, o público mataram Callas (que tombou vítima de uma parada cardíaca), comentou a atriz. Completaria 54 anos dia 2 de dezembro, mas se foi antes da hora.
O mesmo aconteceu com Carmen Miranda e Dalva de Oliveira, para citar as duas cantoras vividas por Marília no palco. Elis Regina, Marilyn Monroe: essas pessoas se queimaram na própria chama, lamenta a atriz.
SentimentosIgualmente artista e consciente de que mexe com os sentimentos de muita gente, Marília Pêra entende mais a fundo essas personagens feitas de carne e osso e sangue para além das cortinas. A inveja está sempre por perto, mas aprendi que a gente não deve dar tanta importância ao que dizem. Se um espetáculo não é o que se esperava, paciência. A imprensa, o público até podem malhar, lançar todas as farpas. Acaba-se esta temporada e a próxima virá com uma montagem que todos irão amar e aplaudir. Faz parte da vida e do cenário. Maria Callas deu importância demais a tudo, e com isso deixou que levassem sua vida.
Como traz consigo o gosto de filtrar de cada personagem o lado bom - sou uma colcha de retalhos -, de Callas Marília Pêra quer reter a elegância e uma certa doçura. O saldo que essas mulheres lhe deixaram foi exatamente esse, o de não se dar tanta importância e viver.
Depois de interpretar três cantoras tão ricas quanto diferentes, o ideal seria encarnar no palco Elis Regina. Adoraria. É uma personalidade que eu conheço muito bem. Elis, para mim, continua sendo a maior cantora. Eu a conheci na intimidade, fomos amigas, mas ela morreu jovem. Teria algum problema com a idade, lamenta. Para quem foi chamada de Marília Callas, tal a interpretação, poderia ser facilmente Marília Regina.


