Vórtice e as escondidas faces dos sentimentos
O convite para a abertura da exposição Vórtice, de Marcelo Paciornik, na Rave Night Club, anuncia ao portador: Mostra de espectros pintados à óleo apresentados sob efeito de argumentos lisérgicos. Se levar-se ao pé da letra a pretensa pompa do texto, a idéia que se terá dos quadros é de uma vertigem de cores, traços e temas. A realidade dos trabalhos, porém, situa-se num plano mais ameno.
Coloco nos quadros imagens que vejo por aí, explica Paciornik, sem se dar ao luxo das elucubrações. Às vezes é a paixão, a dor ou o medo que me leva a escolher o que vou pintar.
O artista é fiel ao processo de fotografar tudo aquilo que lhe chama a atenção, para depois escolher as imagens que levará à tela. A transposição nunca se faz da cena em si, mas da essência que ela traz oculta. A seleção, portanto, é subjetiva. Depende do que a imagem me trouxer, continua o artista.
Abstrato e figurativo estão em sua obra, dependendo do ângulo da visão. Literalmente. Os quadros vistos de perto são uma combinação de cores, luzes e sombras numa tênue opacidade. Afastando-se deles, como numa magia, surgem os retratos colocando luzes sobre a dor, a solidão, máscaras de enganosas aparências, religiosidade, entrega, ingenuidade.
Marcelo Paciornik conta que a criação é feita diretamente na tela. O que vem é quase dadaísta, tão espontâneas são as imagens. Sobre Vórtice diz que tudo foi pensado dentro de uma proposta do lisérgico da trance music.
Peguei a idéia do transe, mas usei o lado mais gráfico. Montei especialmente para este espaço. O que ele quer é ampliar os caminhos da exposição, à medida que aposta em novos endereços. Estar numa casa noturna de renome, como é o caso da Rave, solidifica essa intenção.
Curitibano, 28 anos, Paciornik conquistou menção especial na III Bienal Brasileira de Design com a obra Caos, a Construção de um Olhar; no mesmo ano realizou exposição individual Biodesforme, no Design Center Batel. Em 96 participou do Salão Paranaense, entre outras exposições. Este ano participou de uma coletiva na Galeria Golden Fort, em Londres.
Vórtice poderá ir para alguma galeria da cidade, depois da temporada na Rave, que também acena com a possibilidade de ampliar o prazo da exposição, conforme o interesse do público. São planos um pouco indefinidos, porque o pintor balança entre continuar em Curitiba ou embarcar de volta a Londres.
Para 1999 já tem como certo um novo trabalho: Faces do Final do Século. Que faces serão essas? De anônimos. Minha idéia é fazer retratos das pessoas que vivem esta passagem, para serem mostrados no futuro, responde o artista. Essa curiosidade, espécie de resguardo de um tempo, é o que move Paciornik a esse projeto.
Seria como um documento feito especialmente com essa finalidade de mostrar a moda, os costumes, as caras e cores que hoje movem o mundo e que se transformarão em cores envelhecidas do passado. Seria um pouco a fugacidade da vida passeando por suas telas. As pessoas são sempre as mesmas, mas quero guardar as imagens das que estão vivendo agora. (Z.C.L.)





