No ano que vem... parar de fumar, emagrecer, começar a ginástica, iniciar um curso, mudar de vida! Até a tradicional música de ano novo (''que tudo se realize no ano que vai nascer...''), remete a renovação. Quem nunca fez promessas nessa época que atire a primeira pedra. Mas, será que alguém já cumpriu e levou a sério essas metas, sem adiá-las novamente para ''o ano que vem''? Alguém se arrisca?
A data é realmente uma cilada, na opinião do psicanalista Marcelo José de Castro, de Londrina. Pois ao mesmo tempo que o ano novo significa tempos melhores, também pode esconder a armadilha de promessas não cumpridas, que serão adiadas mais uma vez para o próximo ano.
Castro explica que desde tempos ancestrais o homem precisa de símbolos que marquem eras e o tempo. ''Como se nessas marcas se renovasse a esperança''. Porém, o ano, o calendário, não é nada mais que uma convenção ''para atender necessidades culturais, políticas, geográficas e econômicas''. Portanto não há nada de novo, e que possa trazer mudanças.
Para o psicanalista, o ''perigo'' do ano novo é as pessoas pensarem que ele, por si só, traz mudanças. ''Os limites entre o simbolismo saudável e o alienante não são muito nítidos. A pessoa não pode se apegar ao ano novo, uma convenção exterior, esperando que isso possa trazer mudanças internas'', explica.
Mudanças acontecem, sim, diz Castro, mas quando já se estava preparando isso, mudando atitudes e valores. ''O ano novo pode ser, sim, um símbolo saudável, mas de perspectivas reais de mudanças, isso através de um processo de amadurecimento'', afirma. E para mudar, completa o psicanalista, ''é preciso olhar para trás''.
O ponto fundamental para entender que o ano novo não significa necessariamente mudança, é que o inconsciente do ser humano, segundo o psicanalista, é atemporal, não é regido pela lógica. ''Se a pessoa tem realmente um propósito, pode escolher qualquer data para começar. A força interior é que vai fazer a pessoa cumprir sua meta'', afirma.
Colocar só no ano novo um marco para mudanças, segundo o psicanalista, pode, ao invés de trazer sucesso, causar frustração. ''Depressão pós ano novo não é raro acontecer. Acabam as festas, acaba o furor, a temporada na praia, e as pessoas se esvaziam, têm que encarar a realidade e os velhos fantasmas voltam. Aí bate a vontade de empurrar, de novo, tudo para o ano que vem'', explica.
Castro propõe a celebração do ano que passou, como uma forma de se parabenizar pelas realizações. ''É interessante pensar no que você consegiu, no que fez, em que 'pisou na bola'. Quanto mais cedo a pessoa 'acordar' e perceber que as mudanças são internas e que não adianta aguardar convenções externas, melhor para ela''.
E se ''nossos fantasmas não compram agenda'', segundo Castro, o melhor é celebrar sem ilusões: ''faça acontecer, não espere''. E Feliz Ano Novo!

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