‘‘A Reserva Volta Velha é como uma jovem, cheia de energia e de encantos que eu, um jovem meio índio não sei explicar.’’ A definição é de Clarson Ale, especialista em manejo de áreas protegidas; viveu no Xingu por dois anos e meio. Para ele, a Mata é jovem e a Chapada dos Guimarães (MS), por exemplo, é um senhor de idade, pessoa já consciente, tranquila.
A reserva - que ele conhece muito bem - é um pedaço da Mata Atlântica de planície costeira. Fica pertinho do Mar. Em Itapema do Norte, balneário de Itapoá (SC), você sai da praia e sete quilômetros depois vê a mata. É uma experiência incrível.
Antiga fazenda de búfalos e de extração de madeira se transformou em Reserva Particular do Patrimônio Natural em 1992Chegando na pousada, pertencente à família Machado, prepare-se não só para as trilhas mas também para a canoagem e cavalgada. A melhor roupa é a que cobre todo o corpo. Você vai entrar no território dos mosquitos & cia. Os bichos picam terrivelmente. Passe um repelente e vá de tênis ou de botas. Os guias orientam, e preparam bem os visitantes. Eles, profissionais do meio ambiente, entram na mata pedindo para o grupo fechar os olhos e formar uma corrente, de mãos dadas ou um com a mão no ombro do outro. ‘‘Vamos ouvir a mata, relaxar?’’. E não há quem não relaxe.
Depois de caminhar um pouco às cegas, de olhos fechados mesmo, você já começa a se sentir outra pessoa. ‘‘Os norte-americanos ficam malucos’’, dizem os guias Ale e Carlos Alberto de Oliveira, que faz a canoagem nos rios Braço do Norte e Saí-Mirim. Em Curitiba, ele é responsável por unidades de conservação. Tempos atrás, a reserva fechou convênio com a universidade Anthioch College, do Estado de Ohio. De lá pra cá, recebe pelo menos uma turma por ano. São 20 ou 30 pessoas dos EUA. O que eles fazem aqui? Estudam a Mata Atlântica, embasbacados. Outros frequentadores assíduos são das universidades de Londrina e Federal do Paraná, que costuma dar palestras aos americanos. Aparece gente de todo canto.
A Reserva Volta Velha é o maior refúgio natural de vida silvestre das planícies costeiras do estado de Santa Catarina. São 1.100 hectares de floresta Atlântica original, com equipamentos próprios para atender às visitas, do café colonial (regadíssimo) à cama.
A Casa de Vidro: abrigo no meio da mataA antiga fazenda de búfalos e de extração de madeira pertencente à família Machado, virou RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) em 1992. O regime é um privilégio para o fazendeiro (isenta uma boa carga de impostos) e para o visitante. É uma forma de preservar o que é belo. E permite o manejo sustentável.
Hoje, a reserva tem cerca de 70 mil pés de palmito plantado - o que é bom, porque muitas espécies locais se alimentam exclusivamente do palmito natural. O objetivo da administração é este: tornar a reserva um centro de excelência de educação ambiental, e desenvolvimento sustentável.
A reserva também desenvolve programas. A ‘‘Arca de Nóe’’ é um deles, envolvendo as escolas e a comunidade de Itapoá, município com cerca de 12 mil habitantes que ainda não completou dez anos de emancipação. Depois de informar in loco, os profissionais da área falam ao visitante da importância de preservar os habitats dos animais ameaçados de extinção, como a onça suçuarana, a lontra, a anta e o pássaro Jaó do Litoral.
Na mata tem muito bicho: capivara, macaco, veado, coruja, garça, águia. Normalmente eles se escondem de qualquer um, mas não é difícil ver a lontra, por exemplo, durante a caminhada ou canoagem. O percurso de uma hora e meia aproximadamente, pelo rio ou pela mata, é muito prazeroso. Muitos gostam mais da aventura de conhecer a floresta de canoa (canadenses), porque a canoagem por si só é emocionante. É pelo caminho vão aparecendo bromélias e orquídeas, árvores centenárias, imensas, espécies só encontradas na região de Itapoá.
Em alguns trechos é até difícil atravessar o rio, porque a mata invade tudo. Mas vale a pena o esforço, na verdade uma diversão. Vira e mexe, alguém se desgoverna e vira a canoa. Sem problemas. É cair no rio, ajeitar a canoa e começar de novo.
Para um bom observador, amante da natureza, a mata se mostra por inteiro. Por isso é que os estudiosos não deixam passar nada. Nem todos vêem, mas é só procurar os rastros dos sambaquianos, e dos índios carijós. Esses antigos mercadores da mata fizeram altar para os mortos e plantaram espécies frutíferas que, num ou noutro ponto, continuam intocáveis. É bonito. Há pouco tempo fizeram uma casa de vidro para o visitante vasculhar a mata com os olhos, de madrugada, ouvir o que ela tem para dizer. Interessante. Para alguns, é mais uma floresta; para a maioria, é o paraíso, um jardim de bromélias e orquídeas que quase nem existe mais no mundo.


TOME NOTAfotos: Marcelo SoaresPelo rioA canoagem é exercício fácil e prazeiroso nos rios Braço do Norte e Saí-MirimBete Fagundes
Especial para Folha

mockup