VOLTA AO MUNDO EM SEIS SENTIDOS
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de outubro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Na velhice, quando uma pessoa sente a proximidade da morte começa a sentir uma calorosa saudade da infância. Saudade de pequenas coisas que deixam na memória marcas de alegria. Coisas como andar descalço no barro, carregar no colo filhotes de cachorro, chupar manga trepado nos últimos galhos da árvore, tomar chuva nas tardes de janeiro, colocar um pintinho dentro da própria boca para ouvir o piu-piu-piu por dentro, etc.
Na verdade não se trata de um simples desejo de voltar ao passado, mas sim de voltar a experimentar a vida através dos cinco sentidos limpos e límpidos. Experimentar o mundo de maneira livre e subjetiva através do paladar, olfato, tato, visão e audição. Receber o mundo e as pessoas, com os canais de percepção puros e desimpedidos. Sentir as coisas como se fosse a primeira vez. O primeiro sorvete, as primeiras cócegas, o primeiro banho de mar, o primeiro canto de grilo, o primeiro pão quente, o primeiro beijo.
Esse sentimento, que as crianças vivem naturalmente, recheia O Livro dos Sentidos, escrito e ilustrado por Ricardo Azevedo. Lançado pela Editora Ática, a obra reúne num único volume seis pequenos livros de Azevedo sobre os cinco sentidos publicados separadamente em 1995: Menino de Orelha em Pé, Menino de Olho Vivo, Menino de Nariz Esperto, Menino de Língua de Fora e Menino Meio Arrepiado. Ao lado do paladar, olfato, tato, visão e audição, também aparece o sexto sentido, a intuição: Menino Sentindo Mil Coisas. -
Em O Livro dos Sentidos, Ricardo Azevedo não apresenta a percepção sensorial a partir da ótica da ciência racional e lógica. Segue um caminho oposto, revela o universo dos seis sentidos através da literatura com um texto inundado de sentimentos, fantasias, impressões pessoais e bom humor. Sendo o narrador um garoto, os sentidos são abordados a partir do ponto de vista intuitivo de uma criança.
Ao tocar no assunto sentidos de modo subjetivo e poético, o autor revela um outro lado da percepção o que fica guardado na memória para que, na velhice, apareça em forma de saudades. Ele vai mais fundo: Reparando bem, quando olhamos o mundo de maneira racional e objetiva, em geral estamos querendo encontrar pontos comuns entre tudo, pessoas ou coisas. Já quando olhamos o mundo do ponto de vista subjetivo, acabamos por encontrar, por vezes, as imensas diferenças. É ótimo saber que temos pontos em comum. É fundamental não esquecer que, ao mesmo tempo, cada ser humano, independente de qualquer coisa, idade, sexo, raça, cultura, é sempre especial e tem sempre um jeito particular e único de enxergar a vida e o mundo.
Tudo que chega até nós entra pelas portas dos sentidos. Sejam eles cinco, seis, sete ou cinquenta. Toda e qualquer forma pela qual nos relacionamos com o mundo e com a pessoas passa necessariamente pelos sentidos. Assim, devemos tratá-los com cuidado e respeito. E claro, com um certo tato. Pensando bem, a pele é uma espécie de roupa cobrindo o corpo humano da gente. Se a pessoa não tiver pele ia ficar mais pelada do que nunca, e a vida ia ser bem dolorida. É que as dores moram escondidas debaixo da pele. Dor de dente mora debaixo da pele. Dor de cabeça mora debaixo da pele. Dor-de-cotovelo também.
O Livro dos Sentidos de Ricardo Azevedo, Editora Ática, 80 páginas, R$ 14,90 (preço promocional até final de outubro, R$ 9,90). Editora Ática - internet: http://www.atica.com.br. Telefone (11) 3346-3000.


