Há alguns dias a diretora da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), musicista, professora e audioartista, Janete El Haouli, entrou em uma loja para comprar roupas e começou a se sentir incomodada, inclusive fisicamente, com a música que tocava no local. ''Perguntei à vendedora se havia algum espaço na loja onde eu pudesse ver as roupas sem precisar ouvir música porque ela estava me fazendo mal. A moça olhou-me espantada, sem entender o que estava acontecendo'', recorda. Como acontece em relação ao cigarro, nos tornamos ouvintes passivos. Conforme o educador, compositor e pesquisador canadense Raymond Murray Schafer, o ''ouvido não tem pálpebras''. ''Para mim, é absolutamente tirânico. Acredito na autonomia do sujeito para me permitir decidir o que quero escutar. Isso é uma questão de respeito ao outro'', reflete.
Segundo a musicista, bom senso é a palavra-chave para tornar os ambientes sonoros menos poluídos e mais agradáveis. ''Um bar que oferece música ao vivo aos clientes deveria atentar para o equilíbrio sonoro ambiental dispondo de um bom microfone, uma boa caixa acústica. O cliente também deveria ter o direito de ir a este tipo de estabelecimento apenas para conversar. Por que não oferecer um ambiente com música e outro sem?'', sugere.
Tocando na noite há mais de 20 anos, o músico Beto Junior acredita que as pessoas possuem uma memória auditiva; percebem o som ambiente, apesar de não possuírem o hábito cultural de escutar criativa e atentamente o som. ''No bar, observo os clientes para saber em que momento a música está fazendo sentido. Preocupo-me com as condições técnicas do ambiente e se percebo que uma pessoa está cochichando no ouvido da outra diminuo o volume na hora'', assegura.
Janete acentua a diferença entre ouvir e escutar. Segundo a musicista, a primeira ação é fisiológica. Já escutar é um ato psicológico; pressupõe pensamento, estabelecimento de relações a partir do desejo e do posicionamento do sujeito diante da situação sonora. ''O som possui vários significados. Os professores deveriam ser preparados para ensinar a educação da escuta nas escolas. As crianças seriam incitadas a desenvolver ''ouvidos pensantes'' (outro termo cunhado por Schafer), criando relações entre os sons que nos rodeiam (paisagens sonoras) e poderiam se questionar - o que vou fazer com este som? Preciso, realmente, emiti-lo?'' (C.V.)

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