Desde que Donald Trump voltou à presidência dos EUA, ele critica a chamada cultura woke. Grandalhão, alaranjado, com aquela boca miúda, ele articula a palavra "woke" fazendo careta, rejeitando a cada sílaba as políticas públicas de inclusão.

Mas o que significa woke? É aquilo que no Brasil chamamos movimentos identitários, que representam o feminismo, as posturas antirracismo, as causas LGBT. Podemos também incluir todas as formas de discriminação que rejeitam socialmente as pessoas em situação de rua e os deficientes.

Essa turma teve que cavar com as próprias mãos os meios de não serem discriminadas, assim nasceram as políticas inclusivas, as normas jurídicas que lhes garantem direitos de igualdade junto aos que se consideram perfeitos, inteligentes, merecedores de toda aceitação ou regalias somente por serem brancos, não portadores de qualquer deficiência, assumidos dentro de apenas duas categorias de gênero ou, simplesmente, por terem nascido homens, considerados durante séculos melhores que as mulheres.

Há quem torça o nariz para as políticas de inclusão quando ouve falar em feminismo, antirracismo ou movimento LGBT. Mas é preciso buscar no cotidiano, nas situações comuns, atitudes carregadas de preconceito para entender a origem dos movimentos identitários ou da cultura woke, aquela que Trump soletra com desprezo com sua boca miúda de onde sai um mundo de retrocessos.

Convivo com a amiga negra que mora no meu prédio e constantemente, no elevador, perguntam se ela "faz faxina". Como se o fato de ser negra a impedisse de ser professora, jornalista ou engenheira.

Já vi amigos gays serem olhados com censura por seu jeito de falar ou se comportar, como se "homens de verdade" só pudessem ser considerados por posturas clássicas de machismo. Por outro lado, parece que ninguém repara quando um "homem de verdade" coça o saco em público ou cospe no chão.

Woke é uma referência ao "acordar". Por isso, a palavra é usada nos EUA onde Trump e seus amigos empreendem cruzadas contra quem desperta. Porque perguntar a uma vizinha negra se ela "faz faxina" ou "cantar uma mulher no escritório " faz parte da cultura torpe que demorou décadas para ser desmontada.

É muito recente a consciência sobre o assédio às mulheres ser considerado crime. Foram muitas batalhas para as mulheres terem o direito de pegar um ônibus sem o incômodo de um macho desavisado encostar-se nelas durante a viagem ou uma "mão boba" tocar seu seio.

Mesmo com as guerras culturais de Donald Trump e de seus amigos assediadores ou as "cartilhas" e cursos de Olavo de Carvalho - que fizeram estragos também no Brasil - a cultura woke ou dos movimentos que exigem respeito à mulher, aos negros, aos deficientes, aos moradores de rua e a todos os segmentos "cancelados" socialmente é um caminho sem volta.

Ainda que se restrinjam verbas a políticas públicas de inclusão em Londrina ou Washington, o mundo não vai entrar de novo no beco do retrocesso. Hoje, as pessoas estão mais espertas e a intolerância já pode ser enquadrada por leis que não existiam em tempos de machismo e preconceito racial naturalizados.

Para quem ainda não entendeu o valor das políticas inclusivas, resta pegar uma carona na expressão woke e sacudir o pacote de preconceitos diante das "belas adormecidas" para desafiar: "acorda, Alice!"

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