Fotos de Jonas OliveiraA ‘‘furiosa’’ em pleno ataque. O repertório vai de Jackson do pandeiro a Mestre Ambrósio‘‘Óxente, tem polaco no forró!’’ E é isto mesmo, como o nome sugere: ‘‘for all’’, para todos. Curitiba, sempre avessa aos requebros do samba, está conhecendo agora um pouco das tradições nordestinas no balanço do forró. Não faltarão os apóstolos do apocalipse afirmando que o forró aqui é um modismo decorrente do crescimento acelerado da cidade, que veio junto com o novo operariado atraído pelo surto de montadoras de automóveis.
Mas quem for até o Calamengau, localizado no Alto da Glória, o mais curitibano de nossos bairros, não vai querer teorizar muito, vai se largar no arrasta-pé e esquecer da vida. Este restaurante é o encrave cearense na cidade. Lá, além da comida, na base da macaxeira e carne seca, a dança e a música têm suas inspirações no pé-de-serra cearense.
Maérlio Fernandes Barbosa, um dos Cearás, dono do Calamengau, atrás do balcão, com o inseparável chapéu
O conjunto que puxa o forrobodó nas noites de sábado e sem dia para acabar tem apenas um curitibano: Edson de Jesus Silva da Cruz que, por questão de simplicidade, atende pelo apelido de ‘‘Osso’’. Ele é funcionário público e responsável pelo som de viola, voz e percussão. Cearenses: Maérlio Fernandes Barbosa, o ‘‘Cearᒒ, dono da casa e cantor; João Laurentino Flor, o ‘‘Ceará da Sanfona’’, sindicalista; e José Marques de Souza, o ‘‘Marquinhos Cearᒒ, cozinheiro, na bateria. O baiano Antônio Teodoro dos Santos, o ‘‘Segura’’, comerciário, no pandeiro. O pernambucano Cícero José, delegado de polícia em Curitiba, no triângulo e voz. O paraense Belém de Mardok, músico profissional, no baixo.
Ceará, proprietário do Calamengau, explica que, por volta de 1984, existiam dois conjuntos distintos, que hoje se fundiram: ‘‘Ceará e suas Fortalezas’’ e ‘‘O Buraco da Lacraia’’ e as confusões com tantos cearás não era tão grande. ‘‘Agora quando o sujeito liga para cá e pergunta pelo Ceará, eu digo que o único Ceará que eu conheço é gaúcho’’, brinca.
A expressão ‘‘calamengau’’ é de origem baiana e expressa tudo aquilo que dá prazer, principalmente com relação ao sexo, mesmo se for ‘‘uma rapidinha’’. ‘‘Você dá um cheiro no cangote de uma galega, começa o esfrega e daí parte pro calamengau’’, explica Ceará Barbosa.
O grupo diz estar animado com o sucesso do forró em São Paulo e Rio de Janeiro. Nestas cidades, é surpreendente o número de jovens da classe alta e média que aderiu ao modismo que até pouco tempo estava restrito aos bairros proletários compostos praticamente de nordestinos. Em Curitiba o forró vem ganhando espaço lentamente. ‘‘Desde os meados da década de 80 a gente já toca em bailes, que no começo eram organizados pelo Partido dos Trabalhadores’’, afirma Ceará.
O forró esgotou sua capacidade no Calamengau e agora vai para a AABB a procura de mais espaço
Mas Ceará critica o forró do Rio e São Paulo que, segundo ele, está enveredando para uma mistura com outros ritmos, inclusive americanos. ‘‘Nós preferimos o forró autêntico, aquele da zabumba, triângulo e sanfona’’, explica. E isto pode ser traduzido pelo repertório do conjunto que vai desde Jackson do Pandeiro passando por João do Vale até Mestre Ambrósio.
Mas a cultura paranaense não é esquecida pelo grupo. ‘‘Em todas as apresentações sempre aparece algumas composições da dupla Belarmino e Gabriela e fandangos do litoral, alguns compostos pelo Osso’’.
Mas tanto sucesso nas noites de sábado está dando dor de cabeça para o grupo. ‘‘A casa está ficando pequena, já chegamos a receber mais de 300 pessoas numa única noite’’, constata Ceará, que firmou uma parceria com a Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) para realizar os bailes no salão de festas da entidade. Se você quiser conferir como é o forró do Calamengau e seus Cearás pode chegar hoje mesmo na AABB.

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