VIVIDO PELOS YANOMAMIS
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quarta-feira, 21 de março de 2001
Luiz Carlos Lisboa Agência Estado 
A exploração de minas de ouro e a presença de antropólogos e jornalistas na Amazônia venezuelana e brasileira provocaram uma catástrofe ecológica que vitimou boa parte dos índios Yanomamis. Mineradores, aventureiros, cientistas e antropólogos envolveram-se na exploração e no martírio daqueles índios. A denúncia e uma detalhada exposição desse drama são o tema de um livro que está sendo vendido nos Estados Unidos e na Europa Trevas no Eldorado Como Cientistas e Jornalistas Devastaram a Amazônia de Patrick Tierney.
A tribo mais estudada da história da antropologia, lembrada imediatamente quando se fala da região amazônica, tem a fama de abrigar os índios mais aguerridos e selvagens da floresta sul-americana. A baixa estatura dos seus homens é atribuída à monotonia de sua dieta milenar à base de peixe, mandioca e arroz. Os Yanomamis foram descobertos por Napoleon Chagnon, Jacques Lizot e outros antropólogos, em 1964. Quatro anos depois já estava circulando a obra The Fierce People (O Povo Feroz), de Chagnon, que vendeu quase um milhão e meio de exemplares nos primeiros meses, ultrapassando o sucesso do clássico Maioridade em Samoa, de Margaret Mead. O segredo do best seller de Chagnon foi sua mistura de sexo, violência e drogas, sob a aparência de estudo antropológico.
Agressivos e competitivos, os Yanomamis revolucionaram a moderna antropologia de forma tão radical quanto antes os estudos de Franz Boas e de Margaret Meade haviam feito. Para Chagnon, aqueles índios eram a última fronteira da civilização e seu habitat o derradeiro cenário do homem primitivo no mundo. Trevas no Eldorado, de Tierney, é resultado de uma década de pesquisa antropológica, à qual foi adicionada uma forte dose de denúncia ambientalista. Seu propósito principal é demonstrar que Chagnon e outros, juntamente com jornalistas e cientistas, estão repetindo o padrão de comportamento dos colonizadores espanhóis e ingleses no seu saque desenfreado das riquezas naturais da América.
A hipocrisia, as distorções e os crimes contra os índios em geral e os Yanomamis em particular foram praticados em nome da ciência antropológica e da medicina. Para Tierney, esse drama é parte da história do capitalismo cultural do Ocidente. Sua obra é estruturada como um livro de mistério. Chagnon está na linha de frente da moderna sociobiologia, diz Tierney, afirmando que ele não mediu obstáculos morais ou de outra ordem para provar seus pontos de vista. Chagnon é o que hoje se chama um psicólogo evolucionista. Para ele, os Yanomamis que mais matam seus adversários são exatamente os que lançam mais filhos no mundo, e sua agressividade é menos um fenômeno cultural do que um impulso da seleção natural. Segundo sua corrente, a evolução tem razões que a antropologia tradicional desconhece.
Tierney quase convence o leitor de que os críticos de Chagnon têm em boa parte razão. Nas suas várias incursões entre os Yanomamis, este usou intimidação e comprou os índios com facões baratos para fazê-los trabalhar e permitir a coleta do seu sangue para uma pesquisa de tipos sanguíneos locais. Tierney acha tudo isso razoável até certo ponto, e garante que não há nada de pessoal nas críticas que faz a Chagnon, mas, em abril de 1995, ele e Leda Martins escreveram um artigo no The New York Times acusando duramente o antropólogo, que afirmava estar associado a um rico dono de minas na Venezuela. Por fatalidade, as minas desse senhor estão na área venezuelana dos Yanomamis.


