A atriz Glória Menezes vive um dos melhores momentos de sua carreira de 40 anos, graças ao papel que interpreta no palco em ‘‘Jornada de um Poema’’. Desde o ano passado, público e crítica reverenciam sua atuação na pele de Vivian, a doente terminal. Depois do sucesso no Rio, São Paulo e Lisboa, onde ficou em cartaz durante um mês – ‘‘chorávamos todas as noites com a manifestação da platéia’’ –, o espetáculo viaja pelo Brasil.
‘‘Vivian é uma personagem meteórica’’, disse Glória em entrevista à Folha 2. Em outras palavras, este é um dos maiores presentes que a vida poderia lhe dar pela riqueza que o papel representa. ‘‘É uma personagem inédita, multifacetada. É um acontecimento na vida de qualquer atriz’’, celebra.
Durante boa parte da peça a platéia ri muito com a ironia de Vivian Bearing, a professora de Literatura que se julgava autosuficiente pelo conhecimento que armazenara durante toda a vida. Ao se ver no limiar da vida e da morte, muda todo o seu conceito existencial. ‘‘Ela dá uma lição de vida para mim e para todos aqueles que vão ao teatro’’, assegura a artista. ‘‘Quem entra no teatro, não sai como entrou’’.
Um dos ineditismos da montagem está na condição de Vivian ser a relatora de sua própria vida, ora no passado, presente ou futuro. Ela guia as pessoas por esse passeio sem uma sequência lógica do tempo, e no mesmo instante é a própria vivendo a ação. Por mais que se entregue à representação, ainda assim ‘‘não posso apagar o que sou’’, concorda Glória Menezes. ‘‘Mas aprendi muito com o personagem. O que mais aprendi foi a simplicidade. Para que complicar a vida?’’
Em cena não existe despojamento: ‘‘É uma exposição. Eu me exponho de corpo e alma’’, confessa Glória. Inteiramente apaixonada pelo trabalho, deixa no ar a inquietação de uma quase impossibilidade em encontrar no futuro um papel como este. ‘‘Não sei se terei outra Vivian Bearing no tempo de vida que ainda me resta’’. Como nada é definitivo, ela espera que os deuses do teatro lhe sejam mais uma vez gentis. Seja como for, daqui a 20 anos, imagina Glória, muitos ainda dirão: ‘‘Em 2001 assisti à ‘Jornada de um Poema’’’. Ou seja, o inesquecível acontece a cada sessão. (Z.C.L.)

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