Introspectiva, Clarice Lispector considerava a escrita uma verdadeira necessidade, um bote salva-vidas: ‘‘Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? Assim: como se lembrasse. Com um esforço de memória, como se nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro e a lembrança é em carne viva.’’
Considerava o ato de escritura um ato misterioso onde sua grande ferramenta era o exercício da intuição: ‘‘Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler distraidamente.’’
Seus romances não possuem uma história, no sentido clássico, a ser narrada. O grande peso de sua obra está nas impressões descritas, na subjetividade. Sua preocupação maior não estava com os fatos mas com as repercussões dos fatos nas pessoas. Fazia de seus textos verdadeiros redemoinhos que tragavam o leitor para um mundo onde os estados de alma desenhavam paisagem íntimas. Algo como a confissão das impressões: ‘‘Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo, uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.’’
Falar de Clarice Lispector é um tarefa difícil. Isso por que praticamente tudo já foi dito, repetido e reforçado. Trata-se da escritora mais estudada e analisada da literatura brasileira. Assim, a melhor coisa a ser feita é lê-la - e sujeitar-se a um de seus mandamentos: ‘‘Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em ‘entender’. Viver ultrapassa todo entendimento.’’

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