Josoé de CarvalhoCelso Antunes: ‘‘as escolas precisam formar um centro de treinamento de habilidades’’‘‘Se há algum Celso furtado aqui realmente sou eu’’. A resposta veio rápida e em tom bem-humorado para a senhora que insistia em confundir o professor e escritor Celso Antunes com o economista Celso Furtado. Autor de mais de 180 livros voltados para a educação infanto-juvenil, Antunes esteve em Londrina para ministrar um curso de técnicas de ensino de aprendizagem. É a terceira visita do autor à cidade em dois anos, e ele pretende voltar no próximo semestre.
Celso Antunes é paulistano formado em Geografia e atua como diretor de ensino da Faculdade Sant’Anna, em São Paulo. A jovialidade não disfarça a preocupação com que trata o assunto: ‘‘A aula exige muita seriedade. O professor tem que compreender o processo de aprendizado, mais ou menos como o médico entende os efeitos dos remédios para obter a cura’’.
Mas, para Antunes, não basta apenas compreensão. Deve-se também trabalhar as habilidades. ‘‘Na vida prática a maior parte do uso que fazemos do que se aprende vem do uso das habilidades. Por isso as escolas precisam formar um centro de treinamento de habilidades’’, comenta.
Há quase 35 anos publicando livros voltados para o assunto, Celso Antunes tem uma produção extensa em Geografia e Educação. ‘‘Marinheiros e Professores’’, seu livro mais recente, já está no prelo e deve ser lançado em abril. ‘‘É um título um pouco estranho sobre uma metáfora do processo de ensino e do aprendizado’’, revela. Na obra, Antunes faz uma comparação do professor do próximo século com os marinheiros do século 16, da época dos descobrimentos.
Escrevendo uma média de seis livros por ano, Antunes também prepara um lançamento para maio. ‘‘As Múltiplas Inteligências e seus Estímulos’’ deve sair pela Papirus.
O ritmo intenso de produção tem uma fonte quase inesgotável. Antunes passa para o papel a experiência que acumula em palestras, cursos e conferências. ‘‘Toda palestra provoca um tipo de assunto e há um crescimento. Um professor nunca ensina apenas. Ele aprende também.’’
Dos anos passados em salas de aula e em pesquisas, Antunes concluiu que uma das inteligências que a escola deve estimular é a chamada inteligência espacial, que desperta a criatividade. A teoria foi levada à prática com o livro ‘‘Momento de Decisão’’, que traz lacunas no enredo para que o leitor colabore com a história.
‘‘Uma das maneiras mais fáceis de exercitar a inteligência espacial é construir histórias interativas sem exatamente um meio, começo e fim. A idéia é tirar o leitor de uma postura passiva’’, explica. O livro é uma obra de ficção para jovens entre 12 e 16 anos escrita em co-autoria com Telma Guimarães Castro Andrade.
‘‘O exemplar do professor tem a história completa, mas o do aluno não. Em uma sala de aula com 40 alunos você pode obter 40 histórias diferentes. Mas é difícil o público tomar conhecimento de um livro como esse. Quantas pessoas vão entrar em uma livraria, ver e se interessar por essa obra? É muito difícil’’, assegura.
A parceria foi idéia da Editora Scipione, que considerava a linguagem de Antunes muito masculinizada para adolescentes. ‘‘É uma experiência agradável que estou repetindo num próximo livro. A Telma não muda a história nem os personagens, mas dá um tom mais feminino à obra.’’
O primeiro livro da dupla foi ‘‘Não Acredito em Branco’’, lançado no ano passado. O texto trata do descobrimento do Brasil e traz frases em tupi arcaico, formuladas e traduzidas por Antunes. ‘‘É escrito 90% em português e 10% em tupi arcaico do século 16. É uma visão muito curiosa porque é a história dos primeiros anos da colonização do Brasil sob a ótica do indígena. Você vê então um povo orgulhoso de seus valores, que enxerga os europeus como invasores. O índio não pediu a civilização’’, acrescenta. O trabalho com o tupi arcaico só foi possível graças a um dicionário encontrado num sebo em São Paulo.
A mesma seriedade com que trata seus livros ocorre quando o assunto é o ensino brasileiro. Apesar de vislumbrar um quadro problemático, Celso Antunes não deixa de ser otimista: ‘‘Eu fui dar uma palestra em Maringá e o vôo não chegou a tempo. A palestra foi transferida para o dia seguinte, próximo a um feriado. Mesmo assim compareceram cerca de 800 pessoas, provenientes de diversos lugares. Essas pessoas foram para aprender. Se temos professores com esse espírito, não há como não acreditar nesse País’’.
Mesmo contente com tanto empenho, o professor acredita que as soluções podem ser demoradas, por dependerem de outros fatores. ‘‘O maior desafio da Educação está na desigualdade social, na impossibilidade de todos os brasileiros chegarem aos professores. Se o País tivesse uma população alimentada, com saúde e transporte seria muito mais fácil. O nosso grande desafio é chamar para a mesma mesa os excluídos.’’
Mas a realidade aponta em outra direção: ‘‘Em grande parte do País a escola pública tem vidro quebrado e paredes pichadas. Mas a situação parece diferente no Paraná. Em Maringá, Londrina e Curitiba as escolas públicas são limpas, estão longe do que se vê no restante do Brasil. Isso é educação, aqui parece que há um outro nível de cultura. Fazer de todo o Brasil um gigantesco Paraná seria uma bela caminhada’’.

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