Vivemos uma época vira-lata
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de novembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Depois do samba, o lírico. A cantora Olívia Byington está armazenando forças para sair à luta, conseguir espaços e patrocínios e colocar no mercado - para aquela fina fatia de bom gosto - um novo disco. Esse é mais que um desejo, é determinação. Pretendo gravar até a metade do ano, não pode passar disso, diz com todas as letras.
Assim tem sido sua vida. Já me conformei de que faço meus projetos por mim. Faço, procuro, cutuco até sair o que quero, afirma. Então, de acordo com aquilo que planeja, em 1999 virá uma gravação completamente diversa de A Dama do Encantado, que ficou entre os dez mais de 97, na lista do jornal O Globo e o melhor de tudo que foi feito no ano, segundo O Dia.
Se desta vez o samba ganhou as cores de sua voz nos registros mais graves, o próximo CD terá canções que possibilitem vôos altos, agudos, floreios vocais. A soprano voltará à cena, depois deste namoro nos subúrbios cariocas. Olívia é explícita: quer um trabalho grande, com orquestra e piano no acompanhamento. O pianista só pode ser Leandro Braga, o mesmo com quem divide o palco em A Dama do Encantado.
Olívia diverte-se pensando na possibilidade de surgir um trabalho ainda mais cult. Entre as faixas obrigatoriamente estarão composições de Leandro Braga e Elisa Lucinda. São músicas muito bonitas e muito adequadas para a minha voz, observa. Somam-se à lista números extraídos do cinema. Estou ouvindo coisas, estou deixando me inspirar, avisa. E procurando novos autores, que acho muito legal certas descobertas.
Para Olívia, o único caminho que ela tem pela frente é este que vem trilhando há tempos - o de cantora e produtora. Eu me boto na classe dos cineastas, se autodefine. Não sou artista de gravadora. Sou produtora e roteirista de minha carreira.
Tamanha teimosia enfrenta problemas à altura, mas nada que não seja superado. Quando atravessa as montanhas colocadas em sua estrada, só ela sabe o gosto da vitória. Luzes e aplausos chegam inteirinhos à autora e principal intérprete do espetáculo. Tem esse lado bom - o mérito é meu, reforça.
Tudo seria diferente se o mercado fosse diferente, os executivos das gravadoras tivessem uma visão mais ampliada de mercado, não fechassem num único produto. Mas essa é a realidade. E todo aquele que faz um trabalho consequente, de qualidade pertence a uma classe que está massacrada, afirma.
Olívia Byington, não se inclui nesse time justamente porque corre noutra raia, buscando patrocínios, criando seus trabalhos. Sou uma sobrevivente, suspira. Confio no meu público, no público de bom gosto, que compra, persegue, vai ver, cobra da gente. Ele existe, um pouco em cada lugar do Brasil, mas está aí.
A cantora não aceita a mediocridade vigente. Música sempre foi poder, jogo de influência. Mas como hoje em dia tem muito mais dinheiro e muito mais poder, e um grupo muito maior que consome música de baixo nível, criou-se uma ditadura do horror, continua Olívia. Existe uma ditadura da falta de qualidade. Você conta nos dedos as pessoas que desenvolvem trabalhos alternativos, que fazem coisas interessantes.
Um exemplo dessas raridades chama-se Maria Bethânia, que há mais de 30 anos impõe-se com sua arte. Bethânia continua sendo uma deusa porque ela se mantém; faz sempre um disco totalmente diferente do outro, mas do seu jeito. Nara Leão era outra: A vida inteira nunca estourou, mas foi sempre uma pessoa com coisas interessantes a dizer.
Exceções como essas são raras no panorama atual: As cantoras se transformaram em produtos de mercado. Tem muito sabonete na praça, dispara a artista. Levando-se em conta que o disco A Dama do Encantado abrange a época de ouro da música brasileira, que tempos seriam estes?
Olívia abre-se num sorriso:
- É uma época vira-lata. Nunca vi uma música tão vira-lata como a atual. Também pode ser legal, tem a sua graça, mas em proporção à coisa boa, a quantidade de lixo é muito grande. Um lixo não-reciclável. Mas tem uma coisa: transformar coisa boa em lixo, para mim chega a ser uma outra arte. É a cultura do trash. Pegar o Pecado Capital, cantado pelo Paulinho da Viola e transformar num samba de pagode, cantado na voz desse sujeito que canta com trejeito estragado, é de doer. Não precisavam fazer isso.
Olívia não economiza dardos. Nesse festival de absurdos em que se transformou a vida musical do País, como afirma, acrescenta-se agora essa história de que a música baiana é a que manda no País. Mesmo com toda gama de ritmos, ainda assim não se compara à sofisticação melódica daquilo que se produz no Rio de Janeiro, opina a artista.
Acho terrível trocar-se o umbigo do País para a Bahia. Mesmo com todo o barato da música baiana, que tem Gil, Caetano, ainda assim vejo como um equívoco mirar-se por aí. Temos carimbó no Norte, guarânia no Sul, uma pluralidade incrível. Mas, como força poética e estética, o Rio de Janeiro é o tal, observa.
Sua sofisticação melódica deu um Tom Jobim, um Vinícius, um Chico e na época de ouro tinha Pixinguinha, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Wilson Batista, Assis Valente e tantos outros, enumera Olívia Byington. Por essas e outras nada mais natural que lhe chamem de uma cantora cult. É um rótulo engraçado, mas que me cabe, rende-se, finalmente.


