Viva a arte viva!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de abril de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Se a vida tem um sentido poético, ou se corre sangue pelas artérias da arte para irrigar a vida, a realidade e o cotidiano, então a matéria de que é feito o mundo não é só de sonhos, como dizia Shakespeare, mas de carne, ossos, fezes e todo tipo de matéria e materiais que atravessam nossos corpos, pensamentos e imaginação. Da luz que incide sobre a cor da tinta aos sinais e ondas que atravessam nosso corpo. Das crises ideológicas às idéias, pela qual a arte atravessa, para que a criação se manifeste, como queria Picabia, artista ligado ao movimento Dadaísta: atravessar as idéias como cidades, países.
Mais do que debatida, discutida, a ligação entre a arte e a vida, fundidas em um mesmo plano imanente, atravessadas uma pela outra, tem sido realizada e levada a cabo depois que o discurso formalista, que pregava a arte pela arte, perdeu seu sentido, há quase um século, quando os integrantes do movimento Dadá radicalizaram no deboche e na crítica à arte feita até então em uma Europa imersa na 1ª Guerra Mundial. Afinal, a arte tinha outros assuntos a tratar além de contemplar seu próprio umbigo.
Com Duchamp, que, aliás, participou do grupo do dadaismo, a idéia que se tinha da arte foi deslocada de seu eixo central como objeto puramente de contemplação estética. Ver, tornou-se perigoso!
Daí em diante, principalmente depois da primeira metade do século passado (20!) a questão arte e vida se tornaria quase uma obsessão no mundo artístico. Intervindo em outros circuitos, em outros meios, utilizando outros materiais que não os tradicionais, o trabalho em arte ampliou sua forma de significar, chegando mesmo a romper com a idéia de obra e objeto, propondo conceitos e formas de percepções impossíveis de serem imaginadas até então. Delas podemos destacar a relação público-obra-artista, em que a intervenção do participante, muitas vezes, é a condição para a existência do trabalho artístico. Também o rompimento com o suporte e as técnicas tradicionais, levando em consideração a eficácia da estratégia em detrimento da perseguição ao belo. Mais, a valorização do processo criativo, a interdisciplinaridade e a consideração aos contextos locais, em um mundo onde as distâncias se encurtam e as diferenças se ressaltam, a cada dia, com mais contundência.
Assim, as contribuições para uma arte que se quer comprometida com a vida, e não com a história ou com a crítica da arte, tem sido conquistadas palmo a palmo, em um terreno onde muitos interesses estão em permanente conflito. Se um artista como o alemão Joseph Beuys, ou os brasileiros Lygia Clark e Hélio Oiticica e todos os grupos como o Fluxus e movimentos como os dos anos 60 e 70, fizeram de suas vidas e de suas obras um acontecimento de desdobramentos consequentes, interessados na transformação da percepção do homem e do mundo, então nosso dever é o de lutar contra a banalização de suas propostas, pensando sempre através desta relação tão complexa quanto delicada entre arte e vida.
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