São Paulo, 13 (AE) - A viúva do escritor argentino Jorge Luis Borges, Maria Kodama, participou ontem (12) de uma palestra sobre o centenário de nascimento do maior nome da literatura argentina deste século. Ela esteve em São Paulo há um ano para o lançamento da obra completa de Borges pela Editora Globo (quatro volumes, dos quais dois estão no mercado), participando, na ocasião, de um debate com os organizadores da coleção.
Maria Kodama chegou sem novidades. Admite que ainda existam textos inéditos de Borges para publicar, além dos ensaios e críticas literárias publicados em jornais - sozinho ou em colaboração - não incluídos nas obras completas. "Não posso avaliar a edição brasileira porque não falo português, mas amigos meus me garantem que a tradução está boa". Quanto aos cuidados gráficos, ela aprovou o aspecto formal da publicação.
Além de textos inéditos, Borges deixou um roteiro para um filme sobre Veneza, cuja tema ela não adianta, sugerindo apenas que está relacionado ao assunto mais caro ao escritor. Considerando o desenho das estreitas ruas de Veneza e as afinidades de Borges, deve ser um roteiro sobre labirintos, ainda mais que Maria Kodama escolheu a inglesa Sally Potter, diretora de Orlando, para a transposição cinematográfica.
"Ainda estamos em negociação, mas acho que ela seria a pessoa ideal para dirigir o filme, considerando seu perfeccionismo e a sensível adaptação que fez de Virginia Woolf", argumenta. Borges adorava cinema e, segundo sua viúva, ficou muito contente quando Bertolucci filmou "A Estratégia da Aranha" (sua estréia na direção). Sobre outras adaptações de contos de Borges, como "A Intrusa", ela não fez comentários. Missão - Acusada por amigos de Borges de oportunismo, Maria Kodama não se dá mais ao trabalho de rebater os argumentos de seus inimigos. Acha quem tem uma missão, a de difundir a obra do marido. "Outros escritores passaram pelo purgatório, mas a memória de Borges continua viva e minha missão é ajudar a divulgação de sua literatura, porque ele é uma figura muito discutida e pouco lida", justifica a ex-aluna e viúva do escritor.
Outro aspecto da personalidade de Borges que ela quer difundir é sua profunda ligação com a ciência. "A sua não é apenas uma obra literária, mas uma literatura que interessa cada vez mais a filósofos e psicanalistas", defende a viúva, lembrando que recentemente um congresso universitário realizado em Buenos Aires tratou exclusivamente do aspecto científico embutido nos livros do escritor argentino.
No conto "O Aleph", todo o conhecimento humano está concentrado num objeto abandonado num porão. Essa metaforização do infinito contido num minúsculo objeto corresponde justamente ao discurso literário de Borges, síntese de toda a tradição ocidental. É desse tesouro que Maria Kodama cuida, sendo a viúva a detentora dos direitos de publicação do autor.

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