Clayton BiaggiIvânia Catarina, a intérprete de ‘‘Marialice’’: aclamação de júri e públicoJá era madrugada de domingo quando o 24º Fercapo - Festival Regional da Canção Popular, promovido pelo Clube Tuiuti de Cascavel, chegou ao seu final. Para anunciar a primeira colocada o apresentador da noite perguntou ao público qual seria a vencedora. ‘‘Marialice’’, respondeu a platéia, em uníssono.
Não deu outra: a modinha composta pelos mineiros Eugenio Gomez e Tito Netto, levou o troféu. ‘‘Marialice’’ foi apresentada por Ivânia Catarina, numa interpretação sensível, que se casou com a letra feita de delicada poesia. A harmonia da composição com os arranjos de cordas, foram perfeitos. Seria muito difícil perder.
Porém, caminhando junto, estava ‘‘Urubu (Mestre do Vôo)’’, do carioca Eudes Fraga, um profissional em festivais. Era anunciado como ‘‘decano’’, na hora de subir ao palco. Na terceira colocação ficou ‘‘Politiqueiro’’, de José Company, de Jundiaí (SP) e em quarto lugar os paulistas João Luiz Petrus e Rita Altério, com ‘‘Braseira’’. ‘‘Trem da Paz’’, do cascavelense Jefferson Lobo, levou o prêmio de melhor comunicação com a platéia.
Não tivesse nos trilhos do festival o ‘‘Trem da Paz’’ com certeza o troféu de comunicação iria para ‘‘A Farofeira de Irajᒒ, assinada pelo também veterano Antonio Vercesi. Samba de breque ao estilo da malandragem carioca, tem uma letra engraçada que imediatamente ganhou a simpatia da platéia.
Politiqueiro - Escolher as melhores de uma seleção de boas músicas foi um abacaxi que o júri soube como descascar. As esperadas e sempre presentes vaias não aconteceram. A nota dissonante foi de Company, o autor e intérprete de ‘‘Politiqueiro’’. Ele não gostou de sua apresentação no último dia e achou injusta a escolha.
A insistência em falar do ‘‘incômodo’’ prêmio - no palco e fora dele -, transformaram o criador na própria criatura. Ao público e jurados acrescentou, além da surpresa motivada com o terceiro lugar, que nem todos os políticos se enquadravam no perfil da letra que ele escreveu.
‘‘Afinal, não vale mesmo a pena/ Viver do futebol, da saudade do Sena/ Quero mesmo é me arranjar/ e não vou mais trabalhar/ Em Brasília é que eu vou me instalar’’. A lembrança tinha lá seus motivos: na noite anterior o ex-governador e presidente da Telepar, Álvaro Dias, assistira à semifinal do espetáculo.
Festival de profissionais - Plínio Oliveira, diretor artístico do festival, como vem fazendo nos últimos anos, deu sua contribuição nos arranjos musicais. ‘‘Meu trabalho é arredondar a concepção do autor, fazer com que aquilo que ele imagina, soe de forma mais agradável. Poucas músicas eu mudo, o que faço é enriquecer, permitir com que ela aconteça legal. E adapto isso à banda do festival: baixo, bateria, saxofone e teclado’’.
O arranjador, que trabalha no Fercapo desde 1992, comentou à Folha Dois que o festival vem sofrendo transformações. O Fercapo deixou de ser amador, com as participações de compositores profissionais. Isso levou os organizadores a acompanharem o ritmo, a darem uma nova estrutura ao evento.
‘‘Os músicos estão crescendo, estão ficando cada vez melhores e não tem mercado para eles. Então esses artistas, sem espaço para trabalhar, encontraram o caminho dos festivais’’, continua Plínio Oliveira. Essa mudança de rota dos autores obrigou os grandes festivais a evoluirem.
No caso de Cascavel houve até uma espécie de ‘‘reserva de mercado’’, deixando um espaço para os concorrentes locais. A medida sugerida pelo maestro não é restrita à cidade. Outros eventos semelhantes têm até mesmo premiação aos artistas da terra, devido a esse profissionalismo.
Descaracterização - Os certames musicais iniciados nos anos 60 continuam a pipocar Brasil afora. Desse universo que movimenta sons e acordes o ano todo, 40 estão na faixa de ‘‘médios’’ e dez no top, como os grandes. O Fercapo é o de maior qualidade afirma Oliveira, como praticamente todos os músicos.
Estar no topo não quer necessariamente dizer que é aquele de maior público. Plínio lembra que o Festival de Alegre (ES) consegue reunir 60 mil pessoas, mas que se descaracterizou. O público comparece para ver os shows com grandes estrelas, sem se importar com as músicas concorrentes. Cria-se aí um desvio da finalidade do certame.
‘‘Aqui se tem 800 pessoas, mil pessoas elas estão sentadas e ouvindo aquilo que está sendo apresentado’’, argumentou. ‘‘Então o festival que ainda é um traço entre o profissionalismo e a possibilidade do público tomar contato com coisas novas é o Fercapo. É o único. Teve festival de MPB com show de Zezé Camargo e Luciano; é uma descaracterização’’.
Sem dinheiro - Há quem defenda esses megaespetáculos, porque dali é que sai a receita para pagar as despesas. Mas como toda faca de dois gumes, acaba cortando o que não deve. O tradicional Fercapo, em que pese sua importância, não pôde ser levado ano passado por falta de dinheiro.
Do empresariado da cidade somente um mínimo contribui para que o evento, de âmbito nacional, aconteça. Este ano o Ministério da Cultura contribuiu com uma verba de R$ 100 mil, mas exigiu dos organizadores prazos rígidos para o festival acontecer, inclusive com a comprovação dos prêmios.
A toque de caixa estão sendo gravadas as mil unidades do CD com as doze finalistas. Era um dos itens do contrato. Para as bodas de prata do acontecimento, em 1999, já está assegurada uma ajuda: do presidente da Telepar, Álvaro Dias. A promessa foi feita durante sua visita ao Clube Tuiuti, na noite de sexta-feira.

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