O mundo está vivendo uma nova guerra mundial. Desta vez, sem sangue. É a guerra pelo controle da informação e, por consequência, de suas vertentes: comunicação e cultura. Os países ricos investem mais nesta área do que em qualquer outra. Hoje, o cinema e a televisão americanos não são apenas veículos de venda de filmes e de shows, mas de produtos nacionais e de modos de viver. O mundo veste jeans e bebe Coca-cola assim como se grudou no neo-liberalismo por causa do audiovisual americano.
O lastro desta globalização cultural via satélites e fibras óticas é o cinema, assim como o lastro da economia é o dólar. Os países sérios que já perceberam isso tomam suas providências. A França, pioneira na defesa do produto cultural nacional, mantém o mais caro e sofisticado programa de ajuda à produção local. Alemanha, Inglaterra e outros já acordaram em defesa de suas imagens. Na América Latina, e no Mercosul, a Argentina é um ótimo exemplo de medidas criativas, que envolvem Estado, TV e publicidade. Precisamos decidir de uma vez por todas: nesta Feira Global, queremos ir como compradores apenas ou também vamos vender nossos produtos?
A Renascença Se resolvemos ter cara e imagem próprias, o Estado brasileiro precisa declarar o cinema uma prioridade. O governo FHC já avançou muito neste sentido, com a Lei Rouanet aperfeiçoada e desburocratizada (era um labirinto de labirintos) e com a Lei do Audiovisual. O resultado foi imediato: mergulhados no nada em 94, fizemos apenas cinco filmes. Já em 95, passamos para 12, em 96, para 35 e certamente teremos mais de 50 em 97.
O Brasil voltou a falar em cinema. ‘‘Carlota Joaquina’’, ‘‘Quatrilho’’, ‘‘Tieta’’, ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’ já são conversas de bar, já está na mídia toda do País a certeza de que o cinema está renascendo na era FHC. Em pouco tempo, no mundo externo, (o tal primeiro mundo onde conseguimos custosamente botar nossos sapatos e nosso suco de laranja), tivemos num rápido instante: a indicação para o Oscar de ‘‘O Quatrilho’’, os prêmios do filme ‘‘Sertão de Memórias’’, de ‘‘Céu de Estrelas’’, de ‘‘O Baile Perfumado’’, de ‘‘Como Nascem os Anjos’’, o lançamento internacional bem-sucedido de ‘‘Tieta’’, as vendas para o mundo inteiro do ‘‘O que É Isto Companheiro?’’, os filmes em produção como ‘‘Xango de Baker Street’’, ‘‘Foolish Heart’’ e tantos outros, os próximos sucessos de obras maravilhosas já prontas como ‘‘A Ostra e o Vento’’, ‘‘Bocage’’ e da ‘‘Guerra de Canudos’’.
Estes filmes, em alguns meses, fizeram mais pelo Brasil do que 20 campanhas da Embratur, vendendo bunda de mulata para apagar a prostituição infantil e os massacres semanais. Em poucos meses. As TVs a cabo já estão produzindo cinema para consumo próprio. As grandes redes se preparam para produzir. Uma nova ‘‘conspiração’’ de jovens cineastas já luta por nova linguagem e linhagem de filmes. Em suma, a tal ‘‘renascença’’ veio em poucos meses. Estamos em pleno caminho do sucesso. Mas... aí, quando tudo vai bem, brasileiro não gosta.
A arte de fracassar De repente, começam a aparecer na imprensa os primeiros sintomas desta desconfortável vitória. Quem é o inimigo? São os imperialistas? Neste momento, não. São os gringos? Não. Os inimigos são alguns cafetões que vivem à custa do mecenato picareta que eles chamam de ‘‘marketing’’ cultural, despachantes malandros de artistas desamparados. Estes são os inimigos espertos. Vivem bem à custa da miséria dos artistas. Os outros inimigos, os ingênuos, são os explorados por eles. São os defensores da cultura ‘‘portuguesa’’, aquela visão arcaica que acha que artista tem de ser fraquinho, protegidinho, fora do mercado, amparado pelo estado apenas com verbas de mecenato. (O Estado como mamãe e não como estimulador de indústrias). Contra a visão moderna de indústria do audiovisual, começam a falar artistas de outras áreas - teatro, dança, literatura e outras musas. Os artistas começam a estranhar nosso ‘‘renascimento’’ precoce ainda, como se fossemos os pós-modernos ‘‘destruidores’’ dos velhos valores artesanais da arte ‘‘pobre e humilde’’. ‘‘Cinema tem, nós também queremos’’. Além de terem lutado para colocar tetos de captação pela Lei do Audiovisual, querem agora nos tirar a Lei Rouanet. E, segundo pressinto, emocionando o coração do Ministro Francisco Weffort que, depois de nos dar munição e nos mandar para a batalha do audiovisual no mundo, pode nos tirar a munição e nos deixar nas trincheiras. A mania corporativista da isonomia pauta estas lágrimas ‘‘poéticas’’. É claro, indiscutível, óbvio, justo, que o teatro e outras artes tenham amparo e estímulo, mas não à custa da destruição do cinema emergente, como se nós fossemos um bando de privilegiados, logo nós, que tivemos sete anos de Jó raspando ferida, nós que não temos acesso as nossas telas ocupadas pelos rambos e reis leões, nós que perdemos uma infra-estrutura técnica, depois de anos de vácuo, de nada, logo nós que filmamos por uma espécie de masoquismo artístico militante. É preciso não ter medo de dizer que cinema, teatro e outras artes são coisas muito diferentes e que cinema é muito mais caro, mais complicado, que depende de distribuidores, exibidores, tecnologia sempre mudando, insumos e infernos que os artistas mais ‘‘livres’’ nem sabem o que são, aliás, graças à comparação entre a fabricação de sapatos e a de aviões a jato. Duvido que o governo um dia trate isonomicamente a indústria de petróleo e a de biscoitos finos. Se a massa ainda vai comer os finos biscoitos que fabricamos, parodiando Oswald, é porque estes biscoitos vão cair como subprodutos de uma coisa pesada, meio mafiosa e ‘‘escrota’’ no mundo todo que é o cinema. E não adianta se horrorizar - é assim mesmo que é: o cinema é a ganda ‘‘pura’’ que sobra dos diamantes falsos do mercado. Só uma mentalidade do século 19, típica de políticos desinformados, poderia agir desse modo, como se o cinema fosse Salão de Belas Artes. Esta insegurança já está permeando os possíveis investidores pela Lei Rouanet e do Audiovisual. Será que vai vencer a mentalidade portuguesa de cultura, que rima com sepultura e brochura? Será que o governo FHC vai destruir sua maior vitória cultural - o ressurgimento glorioso do cinema brasileiro, aqui e no mundo? Será que vai vencer a colonial síndrome brasileira de destruir o que está dando certo, este velho amor à derrota? Suspense. Veremos brevemente em lançamento nacional.

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