Vitalidade cultural
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Getulio Alencar<br> Especial para a Agência Estado 
Recentemente, o escritor paraibano Ariano Suassuna ouviu de um interlocutor paulista a afirmação de que São Paulo era a menos brasileira das cidades, em função de uma invasão cultural que o País estaria sofrendo. Suassuna discordou. Isso pode ser verdade da elite econômica e política de São Paulo, mas o povo paulista é igual ao do Nordeste ou da Amazônia, afirmou. Este povo tem uma vitalidade cultural muito grande.
Escritor de obras já clássicas do teatro, como O Auto da Compadecida, publicada em 1955, e A Pena e a Lei, em 1959, e do romance A Pedra do Reino, publicado em 1971, Suassuna é quase uma unanimidade na literatura nordestina. Aos 69 anos, o escritor é secretário de Cultura de Pernambuco.
Mas o senhor concorda com a idéia de que o Brasil está sofrendo uma invasão cultural?
Suassuna - Existe essa invasão, mas o medo dela é maior na classe média do que no povo. O povo, aquele que eu chamo de o Quarto Estado, que é formado por essa imensa maioria de analfabetos ou semi-alfabetizados que constitui o grosso da nossa população. Há pouco tempo, eu estive numa cidade muito pobre de Pernambuco, na Zona da Mata e, de repente, saindo de um beco, desemboca na praça um grupo de maracatu rural. Foi uma dessas coisas mais bonitas que já vi na vida. Fiquei impressionado. Como é que um povo que passa por essas dificuldades todas, um povo pobre, o povo brasileiro é pobre e o do Nordeste, mais pobre ainda, tem força e vitalidade para produzir um espetáculo tão bonito, forte, vigoroso? Então, ao mesmo tempo em que me preocupo, porque noto que os meios de comunicação são veículos de descaracterização dessa cultura, por outro lado sou um sujeito esperançoso porque levo muita fé nessa vitalidade cultural do povo.
Então, nessa base popular, a cultura é a menos ameaçada?
Suassuna - Eu acho. Apesar das condições em que essa camada vive, indicaria até o contrário. Porque eles, sendo mais pobres, poderiam ser mais inertes, mas isso não acontece. Eu acho que as camadas mais ricas são até mais permeáveis às influências de fora.
O senhor acha que no Nordeste essa cultura popular é mais forte?
Suassuna - Não tenho condições de responder porque não conheço profundamente o resto do Brasil. Eu sei que aqui é muito forte e tenho testemunho, por exemplo, de um paulista como Mário de Andrade, que achava que a cultura do Nordeste era muito forte. Um grande brasileiro nascido no Rio de Janeiro, Alceu Amoroso Lima, dizia que pelo centro do Brasil, partindo do Nordeste, indo por Minas, não por acaso seguindo o rio da unidade nacional, que é o São Francisco, existe um eixo. E, segundo ele, a este eixo o Brasil tinha de voltar, de vez em quando, se não quisesse esquecer de que era Brasil. Então, essa cultura popular tem uma certa força.
E de que forma ela se dinamiza e se transforma?
Suassuna - A questão da dinamização é importante. Novamente volto ao que dizia. Alguns estudiosos da cultura popular brasileira têm uma mania imobilista, que não é a visão dos próprios criadores da cultura. Por exemplo, eles vêm aqui na década de 50, gravam um espetáculo popular qualquer e vêm 20 anos depois e o espetáculo está modificado. Aí, eles dizem: está errado. Não é verdade. Essa é uma das características da arte popular, ela muda, é dinâmica. Cada espetáculo popular, normalmente, tem um núcleo, que é sempre o mesmo, mas o resto varia. É como a Comedia Del Arte. Não tinha uma peça escrita. Você tinha um núcleo que era transmitido pela tradição oral e isso ficava e cada dia tinha uma parte improvisada. As coisas mudam.
Que tipo de manifestação cultural tem mudado mais?
Suassuna - Elas têm mudado no sentido de que alguma coisa se atualiza. Por exemplo, o maracatu rural. Tem um personagem muito bonito, forte, o caboclo de lança, que atualmente é feito de matéria plástica e que antes era feito por outras fibras. Usam tênis. Isso não modifica a essência e não tem nada a ver com a descaracterização. Isso é uma incorporação que eles fazem e tudo fica bonito do mesmo jeito. A minha querida amiga Lina Bo Bardi, infelizmente já morta, dizia uma coisa que é verdade. A coisa que ela mais admirava na cultura popular nordestina é que eles lançam mão do rebotalho, às vezes até do lixo. Pegavam lâmpadas queimadas...aproveitam tudo para a criação de uma beleza extraordinária. Às vezes, usando isso, fazem um objeto muito mais inventivo e bonito do que o anterior. Eu cito sempre um fato que me impressionou muito. Quando os americanos foram à lua pela primeira vez, eu não vi nada que se aproveitasse literariamente. Era tudo ruim. Tudo que vi nos grandes jornais internacioais era de quarta categoria e até plasticamente era feio. Eu preferi muito mais o seriado de Flash Gordon, que me deram mais impressão de conquista do espaço do que o filme real...aqueles astronautas, com os pés de chumbo e andar desagradável...aquilo me deu uma péssima impressão. A única coisa que literariamente se aproveitou foi um verso de um folheto de literatura de cordel do Nordeste porque, dando uma demonstração de uma resistência cultural extraordinária, incorporaram àquele assunto desconhecido, feio, eles fizerma uma recriação de acordo com a nossa cultura.
Há quanto tempo o senhor estuda os cantadores?
Suassuna - Eu fui a primeira pessoa a promover uma cantoria, aqui em Recife. Eu, menino, enxerido, com 19 anos de idade, no Teatro Santa Isabel, que é um teatro mais nobre, digamos assim, e eu trouxe os três irmãos Batista e mais um poeta popular chamado Manoel de Miraflores. Foi um escândalo aqui na época, porque o diretor do teatro não queria deixar. Mas você quer trazer para o teatro onde Tobias Barreto e Castro Alves recitaram seus versos, onde Joaquim Nabuco fez discursos...você quer trazer cantador de viola?, ele resmungou. Então, eu disse pra ele: Olhe, doutor, eu queria saber a opinião do Tobias Barreto e do Castro Alves. Eu tenho certeza de que eles iriam gostar. E eu tinha razão, porque, um ano depois, no Rio de Janeiro, eles cantaram na Academia Brasileira de Letras e Manoel Bandeira fez um verso dizendo que poetas eram eles, e deu uma viola a Dimas Batista, o príncipe dos cantadores, e uma placa de ouro.


