VISUAIS As mulheres de Portinari
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de agosto de 2003
Maria Hirszman<br> Agência Estado 
Reverenciada por alguns que vêem em seu trabalho um discurso nacionalista e de denúncia social e criticada por outros, que o acusam de ser o artista oficial do regime Vargas, a obra de Cândido Portinari continua merecendo uma reflexão crítica mais madura, que nos ajude a compreender por que esse artista continua sendo um divisor de águas na produção artística brasileira do século 20. Uma pequena, mas atraente, mostra no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, é uma oportunidade rara de ver essa produção livre dos atributos que lhe foram sendo colados ao longo do tempo e procura abrir as portas para um novo tipo de reflexão acerca do pintor de Brodowski.
Aproveitando a oportunidade criada com a celebração do centenário do artista, o curador Tadeu Chiarelli percorreu uma série de coleções públicas e privadas e reuniu 32 obras em que o artista retrata a mulher. Lá estão as mulheres brasileiras trabalhadoras, meninas, vigorosas colonas italianas, cabeças de mulata, retirantes chorando ou imagens líricas e atemporais que simbolizam a idéia de ''alegoria do Brasil'', que serve de título à mostra.
A exposição, que está dividida em três grupos, tem início com um conjunto de trabalhos que tipificam a mulher brasileira. O ponto de partida cronológico é o belo desenho ''Negrinha'', feito entre 1930 e 1935, que tem a dupla função de mostrar o interesse do artista em valorizar a fisionomia dos negros e mestiços - em contraposição ao racismo reinante - e a importância do desenho em sua produção. A seleção se prolonga até meados dos anos 40, na qual se sente a crescente importância da denúncia social em sua obra.
Obras como a tela sem título (identificada como ''mulher, criança e espantalho'') em que o artista retrata com grande lirismo, em tons de um azul profundo, uma cena ao mesmo tempo bela e terrível, transformam essa figura feminina num símbolo da miséria do migrante, numa ''portadora da miséria do mundo''. Reminiscências da infância no interior de São Paulo (como vemos em Lavadeiras de Brodowski) ou construções ideais como as clássicas figuras matriarcais de ''Mestiça'', ''Mulher Sentada'' e ''Colona'', é possível perceber o interesse especial do pintor pelo tema.
Além do prazer de admirar um seleto grupo de pinturas e desenhos, a mostra também antecipa uma visão interessante do crítico sobre a riqueza da obra de Portinari: sua capacidade e desejo de dialogar com as mais diferentes correntes estilísticas da arte ocidental, antecipando em muitos anos um procedimento que se costuma atribuir à arte contemporânea, pós-moderna. ''Nas décadas de 30 e 40 ele pega toda a história da arte, vai de Rafael, Michelangelo até Picasso e dialoga com esses esquemas de representação com a maior desfaçatez'', conclui Chiarelli, acrescentando que essa é uma questão sobre a qual a história da arte brasileira pouco se debruçou.
A importância da obra de Picasso, especialmente da grandiosa Guernica, é algo bastante evidente em trabalhos como ''Mulher Chorando'', de 45. Mas há uma série de ecos e diálogos mais sutis ao longo da exposição, que revelam a profunda sintonia de Portinari - muitas vezes visto e encerrado num passado teimosamente figurativo - com os paradigmas da arte européia, realizando uma espécie de movimento de avanço e recuo, em busca de um lugar possível para a arte nacional. Há inclusive na exposição indicações de que o artista teve um curto, mas marcante, flerte com a experimentação abstrata. Aqui e lá encontramos ecos do surrealismo, do futurismo, de uma certa busca do equilíbrio entre a presença da linha e a corporeidade da cor.
Serviço: ''Portinari 100 Anos: Alegorias do Brasil''. Exposição no MAM ( Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera, portão 3, em São Paulo). R$ 5,00. tel. (0xx11) 5549-9688


