VISUAIS
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de fevereiro de 2007
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A fotografia é violenta: não porque mostra violências, mas porque a cada vez enche de força a vista e porque nela nada pode se recusar, nem se transformar. A frase do escritor e sociólogo Roland Barthes (1915 - 1980) pode resumir a mostra Pictorial Urbano II, do fotógrafo Joel Rocha, que está exposta durante todo o mês de fevereiro no Espaço Cultural Beto Batata, em Curitiba. Mas não é só isso.
O escritor francês discursou sobre a sensação causada pela fotografia no livro A Câmara Clara, do qual foi retirada a frase acima. Um discurso que se assemelha muito ao trabalho de Rocha. No livro, o autor fala sobre a essência da fotografia. A mesma essência garimpada pelo fotógrafo nessa série.
Para Barthes, o segredo da boa fotografia é a sensação de quebra da unidade, um desconforto ou vertigem que a imagem pode causar no observador. Característica que pode ser encontrada na série de fotografias assinadas por Rocha e que ele começou a produzir na década de 90. São imagens que retratam fragmentos inusitados do cotidiano, mas que estão necessariamente ligados ao olhar do fotógrafo. É um trabalho muito mais autoral, considera Rocha.
Fotojornalista e colaborador de diversas revistas nacionais, como Veja e Isto É, Rocha está acostumado a retratar a realidade, mas nesse trabalho buscou dar uma visão diferenciada da cena. Um olhar muito próprio que, segundo Barthes, é o caminho que distingüe a fotografia do simples registro documental. Rocha começou a reunir o material da série Pictorial Urbano ainda nos anos 90 e já chegou a fazer uma exposição com o mesmo tema em 1995. Na primeira mostra, reuniu fotografias de Curitiba e Buenos Aires.
Na exposição atual, que reúne 24 imagens, as fotografias foram clicadas apenas em Curitiba. Eu busquei o que a cidade pode oferecer dentro do universo imagético, conta. A cor, as linhas e as formas são o fio condutor das imagens, que congelam segundos que dificilmente se repetiriam numa outra situação. Eu mostro a arte que está nas ruas, nos grafites, no asfalto... resume.
Dentro desta linha, o fotógrafo já editou cerca de 100 imagens. Trinta foram expostas na primeira mostra sobre o tema e 24 constam nesta exposição. São 17 imagens em tamanho 50X75 e sete no tamanho 40X60. A idéia é reunir todo o material editado em livro, mas o fotógrafo ainda não concluiu o trabalho e pretende continuar reunindo material.
Joel Rocha começou a fotografar na década de 80, quando ainda trabalhava como cinegrafista numa rede de televisão paranaense. Na mesma época, já levava uma máquina fotográfica para registrar as pautas. Quando saí da TV decidi assumir a fotografia como profissão. De lá para cá, muitos cliques foram disparados, mas Rocha comenta sobre a dificuldade de entrar no mercado curitibano. Trabalhou como fotógrafo no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUC), na Prefeitura de Curitiba, até assumir a colaboração local de revistas de circulação nacional, cargo que mantém até hoje, como free-lancer.
Sobre a fotografia contemporânea, Rocha comenta: A tecnologia digital banalizou a produção fotográfica atual, tanto na área artística como também na jornalística. Para ele, a grande maioria dos fotógrafos perdeu o senso do momento decisivo na hora de apertar o botão. Ficou muito fácil e barato disparar freneticamente o obturador de uma câmera, obter dezenas de fotografias em poucos minutos e depois pensar que o Photoshop criará uma bela imagem, declara.
Rocha analisa ainda a consequência desta mudança no ato de fotografar: Já não vemos grandes fotos ou fotos instigantes nas páginas dos periódicos e nos veículos de comunicação. Acho que a fotografia, aquela imagen construída em frações de segundos, capturada pelo olho, processada pelo cérebro e finalizada pelo disparo do obturador, está com os dias contados. E Barthes, o francês, já previa isso.


