Curitiba O Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, é o terceiro museu do Brasil a receber a mostra Tomie Ohtake na Trama Espiritual da Arte Brasileira, que começa oficialmente na próxima terca-feira e prossegue até 27 de junho. A mostra, que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, contextualiza a vasta obra da pintora, gravadora e escultora japonesa no cenário artístico brasileiro. Ao todo estarão expostas aproximadamente 200 obras, cerca de 120 assinadas por Tomie Ohtake.
A artista, que neste ano comemora 90 anos, desembarca em Curitiba para a abertura da mostra. Sua equipe está na capital há uma semana, organizando a exposição que retrata os 50 anos da produção de Tomie e as semelhanças de suas obras com as de outros artistas de renome nacional como Aleijadinho, Tarsila do Amaral, Adriana Varejão, Lasar Segall, Mário Cravo Filho, Amélia Toledo e Alfredo Volpi, dentre outros. Paulo Herkenhoff é o curador da exposição.
Amigo de Tomie, Herkenhoff trabalhou quase um ano em cima da mostra, buscando as semelhanças entre as obras, seja no traço, na cor ou no tema. Herkenhoff tomou como fio condutor o fundo espiritual, do qual emergem discussões sobre a persistência do Barroco, as preocupações metafísicas do Moderno, a estética Zen, e a espiritualidade perpassada pelas tradições populares. ''Tomie não queria uma exposição que fizesse uma retrospectiva de seu trabalho (como foi em 2000 quando da inauguração do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo). A idéia era fazer uma coisa mais ampla para comemorar os 90 anos. A mostra, além de reunir as obras de Tomie desde 1960, é um trabalho do Paulo Herkenhoff como um todo'', classifica Paula Amaral, a produtora executiva da mostra.
Paula adianta algumas surpresas que a abertura de Tomie Ohtake na Trama Espiritual da Arte Brasileira reserva aos seus visitantes. Tomie está pintando um quadro especialmente para Curitiba. A tela será afixada no museu. Os visitantes do MON poderão conferir ainda a maquete do projeto que Tomie desenvolve em parceria com o arquiteto Oscar Niemeyer, que idealizou o próprio museu que abriga a mostra da pintora japonesa. Tomie, em plena atividade, foi convidada para fazer um painel do teatro projetado por Niemeyer no novo Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Aceitou o desafio. Sua obra para o teatro lembra uma concha. Estarão expostas ainda maquetes de outros trabalhos de Tomie, com participação direta ou indireta dos filhos Ruy e Ricardo Ohtake.
Tomie Ohtake na Trama Espiritual da Arte Brasileira está dividida em nove módulos. ''Dobras da Alma'' com obras do Aleijadinho, Tarsila do Amaral, Leonilson, Dudi Maia Rosa, Oscar Niemeyer, Alberto Carlos da Veiga Guignard e outros. ''Ultrametafísica'' é outro módulo, contendo obras de Tomie e Ismael Nery, Flavio de Carvalho e Manoel Santiago. Em ''Asè'', a obra de Tomie ''conversa'', dentre muitos nomes de peso, com Lasar Segall, Mario Cravo pai e filho.
No módulo ''O Impronunciável'' a interação que se fez é com obras de Amélia Toledo, Jac Leirner e Larissa Franco. Neste mesmo módulo, abriu-se espaço para artistas contemporâneos paranaenses como Miguel Bakum, Guido Viaro, Orlando Azevedo, Vilma Slomp, Laurentino Rosa dos Santos, Rossana Guimarães, Helena Wong e Tony Camargo. Em ''Estética da Vida'' estão obras de Ruy Ohtake, Willys de Castro e Hércules Barsotti, entre outros. ''Xabori'' traz Lasar Segall, Bené Fonteles, Mira Schendel, dentre outros. ''Do Jabaquara ao Brooklin'', Flavio-Shiró, Hilda Tagusagawa, Kimi Nii, e outros. Este módulo também é conhecido como a Sala Zen, que abriga as obras de Tomie e de seus amigos. Jabaquara foi o primeiro bairro onde Tomie morou em São Paulo. Atualmente, ela tem casa no Brooklin. E em ''Quieta non movere'' poderão ser conferidas obras de Alfredo Volpi, Luiz Antonio e Gilvan Samico e suas semelhanças com a obra de Tomie.
Tomie Ohtake é natural de Kyoto, no Japão. Chegou ao Brasil em 1936 e fixou-se em São Paulo, naturalizando-se brasileira. Iniciou seus estudos de pintura em 1952. Em 1953, passou a integrar o Grupo Seibi ao lado de Flávio-Shiró, Kaminagai, Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, entre outros. Sua primeira exposição individual ocorreu em 1957, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1969, começou a trabalhar com serigrafia e posteriormente executou litografias e gravuras em metal.
Participou diversas vezes da Bienal de São Paulo a partir de 1961, e de várias bienais internacionais como as de Veneza (Itália), Medellín (Colômbia) e Havana (Cuba). Recebeu o prêmio melhor pintor do ano, em 1974 e 1979, e, em 1983, o prêmio personalidade artística do ano da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1995 recebeu o Prêmio Nacional de Artes Plásticas do Ministério da Cultura.
Realizou inúmeras exposições individuais no Brasil e no exterior, com destaque para a recente mostra retrospectiva, de novembro de 2000 a janeiro de 2001, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Em 2000, deu outro passo bastante importante em sua vida lançando em São Paulo o Instituto Tomie Ohtake, idealizado e coordenado por Ricardo Ohtake e projetado por Ruy Ohtake, seus filhos.
O abstracionismo de Tomie também pode ser conferido em obras públicas, como o painel pintado no Edifício Santa Mônica, na Ladeira da Memória, em São Paulo; a escultura Estrela do Mar, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro; a escultura em homenagem aos 80 anos da imigração japonesa no Brasil, painéis para o Memorial da América Latina e para a estação Consolação do Metrô, em São Paulo.

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