Ao confrontar a Europa civilizada e a primitiva cultura polinésia, o pintor francês Paul Gauguin entrou para a arte contemporânea demolindo conceitos e influenciando estéticas. Chamado por alguns críticos como ‘‘pai da pintura moderna’’, sua obra foi de extrema importância no desenvolvimento de movimentos artísticos posteriores. Porém, por vezes, esta importância foi eclipsada por sua própria vida. A GNT exibe hoje, às 22 horas, o documentário inédito ‘‘Paul Gauguin: Um Gosto Pela Barbárie (Paul Gauguin: Un Gout Barbare)’’, com uma hora de duração, que leva o espectador a conhecer a vida e obra deste pintor pós-impressionista que revolucionou as artes plásticas.
Nascido em Paris, em 1848, Gauguin passou seus primeiros anos no Peru - entre 1849 e 1854 - com parentes de sua mãe viúva. Os cinco anos passados em um luxuoso palácio em Lima o marcaram para o resto da vida. O desejo de conhecer outros lugares o levou para o mar aos 17 anos. Percorreu o mundo como piloto de um navio mercante e entrou em contato com culturas completamente diferentes da sua. Índia e Japão o fascinaram. Voltou a Paris em 1871, onde se casou com uma dinamarquesa e foi trabalhar em uma casa de câmbio.
Durante todo sua juventude, a pintura era apenas um hobby. Gostava das artes em geral e comprava obras de pintores como Monet e Cézanne. Por volta de 1876, Gauguin começou a expor seus próprios trabalhos. Porém, conforme o tempo passava, a pintura se tornava mais e mais importante em sua vida, até se tornar uma obsessão. Em 1883, aos 35 anos, deixou definitivamente sua profissão para se dedicar à pintura. O resto de sua vida se tornou um contínuo abandono da família, pátria, amigos, conforto e tudo aquilo que não estivesse ligado à sua arte.
A pobreza o obrigou a abandonar Paris e o levou, em 1888, a Pont-Aven, na Bretanha francesa, uma aldeia frequentada por artistas nacionais e estrangeiros, em busca do pitoresco. Ali conheceu os irmãos Van Gogh, Vincent e Theo. Vincent entusiasmou-se pela sua obra. Theo, marchand de uma galeria parisiense, tornou-se seu representante. Isto lhe deu ansiada estabilidade financeira, por um curto tempo.
ReproduçãoAuto-retrato (1894) com o gorro de astracán com o qual Gauguin costumava passear em ParisMas uma visita a Martinica, no ano anterior, o havia levado a sua primeira incursão ao exotismo. Suas primeiras paisagens pintadas naquela região já manifestavam de forma clara o estilo característico que viria a ser sua marca. As experiências com um primitivismo estudado continuaram em Pont Aven. Em uma carta seu irmão, Vincent Van Gogh escreveu: ‘‘Gauguin e Bernard (Émile Bernard, jovem pintor que conheceram na Bretanha) falam agora de pintar como crianças.’’ A ‘‘pintura de crianças’’ que Gauguin queria, porém, estava longe da ingenuidade comovedora do Alfandegário Rousseau. Sua pintura era uma tentativa consciente de simplificar a forma e a cor em benefício de uma expressão vigorosa.
Foi com a obra ‘‘A Visão Depois do Sermão’’ - também chamada de ‘‘A Luta de Jacob com o Anjo’’ - (1888), sua primeira pintura completamente simbolista, que Gauguin superou completamente as hipóteses realistas do impressionismo e passou a desenvolver o seu estilo próprio, que veio a ser conhecido como sintetismo. As formas planas (como as figuras japonesas que o impressionaram na juventude como marinheiro) de contornos escuros e as zonas de cor pura indicavam sua tentativa de alcançar uma síntese onde a complexidade da idéia se exprime através da simplificação da forma.
A pobreza, porém, voltava a bater às portas de sua vida. O público não compreendia sua nova visão artística e os clientes se afastavam. Depois de vender toda sua coleção de impressionistas, organizou com Bernard e outros jovens artistas uma exposição no Café Volpini, em Paris. Foi a primeira mostra pública do ‘‘Groupe Impressionniste et Synthétiste’’. Infelizmente, não chamou a atenção desejada. Farto de tudo, Gauguin decide ir o mais longe possível da França, para o Taiti. Para levantar o dinheiro necessário, leiloa todas suas obras, com um êxito moderado. Entre os compradores estava Degas, que adquiriu a obra ‘‘A Bela Angela’’ (1889), o retrato da esposa de um construtor de Pont Aven, que o rejeitou.
A primeira viagem do pintor ao Taiti durou dois anos (1891-93) e deu-lhe oportunidade de se converter no colorista que sempre quis. Nas obras taitianas destes anos, Gauguin evitou os agudos contrates que tinha procurado em obras anteriores sintetistas. Seus vermelhos, azuis e amarelos primários coexistiam em harmonia, realçando os aspectos mais luminosos da natureza local. A bela natureza, banhada pelo sol ardente, lhe permitiu alcançar registros de cores que já não eram apenas frutos de sua imaginação.
Contudo, insatisfeito com sua vida nos Mares do Sul, Gauguin voltou a França por um pequeno período, entre 1893 e princípios de 1895, que pouco acrescentou à sua reputação. Suas obras foram mal acolhidas na exposição organizada três meses após sua chegada, na Galeria Durand-Fuel, e o leilão que realizou no Hotel Drouot, em 1895, foi um quase fracasso: das 74 pinturas e desenhos - entre elas, as obras mestras no primeiro período do Taiti - foram vendidas apenas 27.
Em menos de 18 meses, Gauguin retornou à Oceania. A sensação de fracasso profundo, o fez decidir fixar-se por lá definitivamente. Primeiro no Taiti, depois nas Ilhas Marquesas, pintou suas últimas obras mestras. Entre elas, o imenso quadro, o trabalho alegórico ‘‘De Onde Viemos? Quem Somos? Para Onde Vamos?’’ (1897-98), que ele via como uma reflexão sobre o destino humano e sobre sua pintura. Como muitas outras deste período, a obra foi pintada sobre tela barata e com fina camada de tinta, deixando à mostra as imperfeições do tecido. Com uma técnica aberta, quase brutal, conseguia tirar o máximo do que, em princípio, eram limitações econômicas. Esta habilidade em aceitar a natureza dos materiais é uma das reivindicações mais importantes de sua obra, que chegou até os dias de hoje.
Quando Gauguin morreu, em 1903, poucos se deram conta do alcance de seu trabalho. O poeta simbolista Charles Morice - que ajudou Gauguin a publicar o seu primeiro manuscrito sobre Noa-Noa, no pequeno período que passou na França - foi um deles. Seus artigos convenceram patrocinadores do Salón Automme a fazer uma retrospectiva de Gauguin, em 1906. A coincidência desta mostra com a primeira exposição dos fauves acabou por influenciar toda uma geração. Dos Mares do Sul, Gauguin assentou as bases de um estilo novo, vigoroso, que ultrapassou sua época.Reprodução‘‘Sozinha’’, tela de 1893: a figura repousa massivamente no chão e remete a regras de composição arquitetônicaTelma Elorza

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