Curitiba - Revoltado ele sempre foi. A diferença é que agora o artista plástico Frans Krajcberg, está também decepcionado. Com a política no Brasil e com o resto do mundo, que presencia uma destruição global no ambiente. ''A gente se pergunta: por que tantos desastres? Mas não nos perguntamos por que o clima está mudando tanto. Porque estamos machucando demais nosso planeta. A natureza é vingativa e tem todo o direito de se vingar do homem'', disse em entrevista exclusiva à Folha 2. O artista está em Curitiba hoje para lançar o livro ''A natureza de Krajcberg'' (Ed. GB Arte), com fotos tiradas por ele, além de assinar o termo de doação das obras que integram o Espaço Krajcberg, no Jardim Botânico, ao município.
Natural da Polônia, Krajcberg veio para o Brasil no final da década de 40. Chegou a estabelecer-se no Paraná, depois de períodos em São Paulo e Rio de Janeiro, mas foi em Nova Viçosa (BA), que montou o seu ateliê, onde produz as suas gigantescas esculturas. Parte (pequena, mas representativa) do acervo foi transferida para Curitiba em 2003, quando o artista inaugurou na capital paranaense, o espaço que leva o seu nome. É o único desse porte no País, já que ele desistiu de construir o faraônico museu em Nova Viçosa, como você vai ver na entrevista a seguir. Krajcberg também mantém um ateliê e um espaço semelhante ao de Curitiba, em Paris, e no próximo mês se reúne com o prefeito de São Paulo, José Serra e com o ex-governador Jaime Lerner para tratar detalhes de um espaço dedicado a ele em São Paulo, ainda sem data e local certo para inauguração. Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Como foi o processo de produção do livro ''A Natureza de Krajcberg''? Quando o senhor produziu as fotos, já o fez pensando em editar um livro?
Na realidade eu não sou fotógrafo, nunca vendi uma foto e nem pretendo vender. Eu fiz esse livro para mostrar a riqueza da natureza e a destruição dela. Com o livro quero mostrar minha revolta, meu grito. E a fotografia está ligada a essa luta pela vida que eu estou fazendo. Cada vez mais tenho participado, no mundo inteiro, de eventos que discutem o ambiente. E cada vez tenho a constatação de que a destruição está sendo escandalosa, violenta. Não podemos ignorar os desastres naturais que estão acontecendo. Só se grita que perderam tudo, que tem muitos mortos, mas ninguém pergunta porque as coisas estão mudando tanto nesse planeta. E essa pergunta precisamos fazer o mais rápido possível. Discutir cada vez mais e ver os meios para acalmar essa período violento que foi o século 20, o século mais bárbaro que existiu. Minha luta, meu trabalho, é uma tentativa de contribuir para isso. Mas não estou fazendo nada para dar lições para os outros, tenho minha revolta e gostaria de gritar cada vez mais. Meu trabalho é parte disso.
O senhor doou as 113 obras que estão em Curitiba para o município. Não teme pela conservação das peças com a burocracia e a mudança de governo ao longo dos anos, por exemplo?
Eu não quero mexer com isso. Foi dado. Agora a cidade de Curitiba deve cuidar disso. Eu não quero entrar em detalhes. Eu acho que a cidade deve cuidar e ver o que deve ser feito para movimentar esse espaço. Eu acho que ele pode ser mais movimentado e mostrar que é o primeiro espaço grande para defender a ecologia. Pode ser que eles não tenham consciência disso. Por isso eu acho que esse espaço tem importância enorme e a cidade deve mostrar isso como mostra que é um cidade civilizada. Só depende deles (da prefeitura e Fundação Cultural, que mantém o espaço) para eu trazer mais trabalho para cá, mas isso vai ser feito ao poucos.
E como está a construção do seu espaço em Nova Viçosa?
Eu construi dois prédios, com recursos próprios. Faltam cinco, mas eu parei tudo. Eu acredito que não vou fazer esse museu lá na Bahia, porque nunca recebi nem ''bom dia'' do estado. Acho que não há razão para fazer tanto esforço e ser ignorado. Além disso tenho meu espaço em Paris, que é pequeno, mas funciona, e lá tenho bastante apoio do governo.
Como foi sua participação no ano Brasil-França, em Paris?
Eu acho que não deveria ter participado porque não tenho muito apoio do Brasil. Eu nunca vi um jornalista ou oficial brasileiro visitar a exposição, que é a segunda mais vista no evento. Lula (o presidente Luis Inácio Lula da Silva) foi para Paris ver o ministro da Cultura brasileiro cantar e dançar, mas não viu minha exposição. Eu estou muito decepcionado com o Brasil. O que está acontecendo agora é comédia. Nunca pensei que este país pudesse ter tantos comediantes fazendo a gente de idiotas. E o que mais irrita é a passividade do brasileiro. Onde estão os intelectuais, a massa de jovens políticos para se manifestarem contra isso?
E mesmo assim o senhor pretende continuar no Brasil?
Eu não sou brasileiro. Tenho direito de viver em qualquer lugar nesse planeta. Aqui ou lá não tem patriotismo. Brasileiro eu não sou. Ano passado eu passei em Porto Velho e vi índios pedindo esmola para poder sobreviver. Eles não são brasileiros? Quem é brasileiro?
Como está a sua rotina agora?
A idade avança e o movimento dimuniu. Eu já participei do mundo inteiro de movimentos do meio ambiente, mas cada vez que ouço cientistas falar sobre o planeta, dá medo. Não sei até onde vou continuar.
Serviço:
- Lançamento do livro ''A Natureza de Krajcberg'', de Frans Krajcberg. Feito a partir de um projeto de Márcia Barrozo do Amaral, o livro traz também citações de personalidades como Claude Lévi-Strauss, Chico Mendes, Leonardo Boff e Kofi Anan sobre a natureza e a importância da preservação. Hoje, às 19 horas no Jardim Botânico, em Curitiba.

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