VISUAIS - Religiosidade sob a ótica da arte digital
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de junho de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Na cultura afro-brasileira, Ifá é o guardião dos segredos do destino. É uma divindade que não pode ser representada plasticamente. Mas o artista plástico Jack Holmer, especializado em novas mídias, encontrou uma forma de mostrar a divindade, ao mesmo tempo que aponta questionamentos sobre essa encantadora cultura dos primórdios brasileiros fazendo uma ponte com a sociedade contemporânea. Criou a obra digital ''Os Vigilantes de Ifá'', com a qual acaba de ganhar o primeiro prêmio da 7 edição do Salão Graciosa de Artes Plásticas, em Curitiba. A premiação, além do valor em dinheiro, concede uma viagem a Paris.
Realizada dentro dos princípios da realidade virtual, a obra é interativa. Na tela, personagens virtuais se movimentam a partir do comando do espectador. Mas quem vê a obra também pode ''passear'' pelo espaço cibernético, sempre sobre vigilância dos personagens criados pelo artista. Conforme explica Holmer, os vigilantes não existem na cultura afro-brasileira.
A idéia de criar a obra nasceu justamente motivada pela adesão do artista à cultura citada. ''Na religião afro-brasileira eu sou filho de Oxalá e sempre me dediquei a estudar essas questões'', revela.
No ano passado, o artista fez os primeiros esboços da obra, no plano real. ''Primeiro eu faço os desenhos no papel, antes de passar para o computador e desenvolver as esculturas virtuais'', conta. Depois disso, ele escreve algumas palavras que gostaria que a obra remetesse. No caso dos ''Vigilantes'', ''infinito'', ''linguagem'', ''interatividade'' e ''comunicação'' foram algumas dos verbetes adotados e que metaforicamente aparecem na obra. ''As vezes quem vê a obra não percebe isso, mas é o que quero transmitir'', revela.
O processo de criação também foi influenciado pelo artista americano Roy Ascott, pioneiro da interatividade e da cibernética. Holmer utiliza uma das premissas de Scott para defender sua obra. ''Ele diz que a realidade virtual pode fazer as pessoas entenderem os xamãs, por exemplo. Porque através dessa realidade, as pessoas entram num e-transe, bem próximo ao transe da mediunidade xamãnica'', explica. Para desenvolver ''Os vigilantes de Ifá'', Holmer emprestou a tese de Scott, substituindo os xamãs pela cultura afro- brasileira
Mas independente de todas as questões metafóricas, reais e virtuais que estejam atreladas à obra, Holmer salienta que a compreensão vai depender muito de quem observa e interage com o trabalho. ''Cada espectador vai ter uma experiência e que depende muito da sua entrega pessoal''.
Holmer nasceu em Curitiba e, além da pesquisa em arte digital, desenvolve trabalhos na área de designer gráfico. Participou de vários salões nacionais e internacionais e o ano passado integrou a Mostra João Turim, também com uma obra digital interativa. A obra ''Os Vigilantes de Ifá'' vai estar disponível no site www.arteego.com a partir da próxima semana.
Além de Holmer, que ganhou o primeiro lugar do Salão Graciosa, foram premiados as artistas Beatriz Corrêa, que ganhou o segundo lugar com a obra ''Visão III''; Andréia Cristina Las com a obra ''Sem Título'' em terceiro lugar e José Paulo Fagnani, com a obra ''Composição I''. A referência especial do Júri ficou com a obra Mlvilosa, da artista Jussimara Campelo e a obra Iraquian Coke Advertising # 3, de Felipe Scandelari. Este ano, os jurados do Salão foram João Henrique do Amaral; Fernando Velloso; Nilza Procopiak e Alfi Vivern.


