É impossível falar em arte moderna brasileira sem mencionar Anita Malfatti. Mas parece que a artista, protagonista da primeira mostra de vanguarda, só é vista como um marco das mudanças que culminaram na Semana de 22, como uma espécie de símbolo e mártir do modernismo, como mais um nome nas mostras comemorativas, sem que surjam investigações de fôlego sobre sua obra. Não deixa de ser estranho que o livro ''Anita Malfatti no Tempo e no Espaço'', de autoria da pesquisadora Marta Rossetti Batista, data de 1996 e é hoje uma raridade dificílima de se encontrar. A última exposição só com trabalhos dela ocorreu em 2001 na Faap, em São Paulo, e mesmo assim teve um recorte mais educativo, ao centrar a atenção sobre a genial tela ''O Farol''.
A pesquisadora Luzia Portinari Greggio está fazendo um levantamento da produção da artista, um dos principais nomes do modernismo brasileiro. Ela está em busca de novas informações e deve lançar até o fim do ano um livro sobre ela, que tem como principal atrativo o resultado de um trabalho de catalogação de sua obra. Até o momento, foram registradas cerca de 200 obras, além dos desenhos. Cerca de 30 delas nunca foram exibidas antes, como ''O Jogador'', de 1925, que pertence ao embaixador Paulo de Tarso Flecha de Lima e ficou muito tempo fora do País. Outro aspecto interessante da pesquisa é a descoberta de diferentes versões do mesmo quadro.
O Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo, deverá abrigar no ano que vem uma exposição histórica, que tentará reeditar a emblemática mostra realizada pela artista em 1914, quando chega da Alemanha já influenciada pelo pós-impressionismo de seu mestre Lowis Corinth. A pretensão de Tadeu Chiarelli, que idealizou a reedição, é criar um ponto de partida para um projeto curatorial maior, uma reflexão sobre o modernismo brasileiro a partir da artista e não mais uma visão ufanista do modernismo, tendo sua obra como mero apêndice.
''O que eu quero, não sei se vou conseguir, é resgatar todas as obras que foram expostas - isso é possível, já que existe elenco - e suscitar encontros e debates sobre essas questões do modernismo, tendo Anita como eixo principal. Mas é de alguma maneira já ir preparando uma retrospectiva para 2007, ir aquecendo os motores'', afirma o pesquisador.
Antes disso, Chiarelli já deverá revelar parte de sua reflexão acerca de Anita na aula que dará sobre sua pintura Tropical (originalmente chamada de ''Negra Baiana''), no ciclo ''A Caminho da Modernidade'', que a Pinacoteca realiza nesse segundo semestre. A tela, que pertence ao acervo do museu, tem uma importância simbólica na história de Anita por conter questões fundamentais da arte do período.
Além de estar na célebre mostra de 17, a pintura possui indícios claros de retorno à ordem - o que segundo o crítico mostraria que a artista recua no ímpeto vanguardista não por causa da crítica de Monteiro Lobato, mas como resultado de um movimento que, de maneira geral, pauta toda a arte brasileira do período. ''Negra Baiana' dá conta de uma realidade exterior à pintura. 'Mulher de Cabelos Verdes' (outro clássico da artista) é uma coisa, 'Negra Baiana' é outra. Ela tem uma aproximação da discussão nacionalista mesmo antes da mostra de 17'', constata o crítico.
Segundo Chiarelli, tudo isso deriva de um projeto de arte nacional conduzido por Mário de Andrade, que se situa como uma espécie de recuo em relação à radicalidade da vanguarda (vide seus alertas contra os perigos do cubismo). ''Andrade assume o retorno à ordem, a meu ver, porque isso resolve dois problemas. Nos emparelha com o que está ocorrendo na Europa e permite dar respostas ao debate brasileiro, local, à discussão sobre o que seria uma arte nacional. E ele direcionou a produção de todos os artistas que teve condições de direcionar, é inacreditável'', constata o pesquisador, que dedicou seu doutorado ao projeto artístico do escritor.
A relação entre Anita e Andrade é ainda mais relevante quando consideramos a paixão da pintora pelo poeta, que algumas vezes é tão romanceada que acaba ganhando uma importância exagerada na análise de sua trajetória, numa espécie de folhetim da arte moderna.
Essa visão paternalista da obra de Anita, vista como uma mulher frágil, que recua diante da crítica e adocica sua produção em decorrência da falta de aceitação da sociedade paulistana e das pressões familiares, também incomoda Luzia Greggio. Sobrinha de Portinari, ela chegou a conhecer Anita de perto.
Ela também refuta uma certa visão evolutiva da arte moderna, que considera apenas a produção da artista até o início dos anos 20. ''Sua produção sempre foi irregular'', reconhece ela. Isso não quer dizer que a vasta produção subsequente não traga informações preciosas tanto sobre a artista quanto sobre o período. Em 2001, levada pelo fato de que ''quase não se falava de Anita, mesmo no mercado de arte'', se inscreveu e ganhou um prêmio estímulo da Secretaria de Cultura para realizar um documentário sobre ela. Foi a dificuldade em obter material que a levou ao projeto do livro. Segundo ela, um projeto documental, sem pretensões de grande vôo crítico.

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