VISUAIS - Poty revisitado
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de março de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Se fosse vivo Napoleon Potyguara Lazzaroto, o Poty, faria 80 anos amanhã, data do aniversário de Curitiba. Morto em maio de 1998, o artista conhecido por seus desenhos de traços fortes e, sobretudo por seus painéis espalhados pelo Estado e pelo mundo afora, deixou uma grande lacuna no catálogo de grandes artistas locais, mas em contrapartida cumpriu com aquilo que mais pretendia em vida: fazer arte para o público.
Não são poucos os painéis do artista pela cidade e era isso que ele queria, segundo seu parceiro por mais de 20 anos e atual detentor da missão de ''continuar'' a fazer os painéis de Poty, Adoaldo Lenzi. ''Poty dizia: não quero ter 15, 20 desenhos na sala de Roberto Marinho (de quem era amigo íntimo), quero um painel na rua'', conta Lenzi referindo-se a grande preocupação do amigo em tornar sua arte uma obra popular. E isso Poty conseguiu.
Não precisa muitas voltas pela cidade para encontrar a marca do artista. Essas marcas foram deixadas ao longo de muitos anos e a parceria com Lenzi começou em uma em especial: a Sinagoga Frishmans.
Naquela época, década de 70, morreu em pleno trabalho de montagem do painel da Sinagoga, o mestre de Lenzi, um outro grande artista, João Frederico Genher. E foi aí que ele e Poty começaram a trabalhar juntos. Foi aí também que nasceu uma parceria que em pouco tempo virou uma grande amizade. Poty desenhava e Lenzi executava. Dessa convivência profissional veio a cumplicidade. Lenzi entendia como ninguém o temperamento fechado e humilde de Poty. Era através dele que o artista passou a estabelecer seu contato com o mundo.
Até nas entrevistas coisa que Poty não gostava de dar, não por antipatia com a imprensa, mas por absoluta entrega à arte para ele não importavam as palavras e sim aquilo que exprimia em suas criações.
Quando aconteciam exposições, Poty telefonava para Lenzi e dizia de um lado da linha: ''tem uma exposição, será que vale a pena? você vai comigo?''. Lenzi respondia que sim e perguntava se haveria muita gente. A resposta era enfática: ''para mim três pessoas são uma multidão'', respondia o artista.
Esse temperamento aparentemente arredio não tinha nada a ver com o desinteresse pelas homenagens a que era constantemente submetido. Era simplesmente uma faceta do temperamento de alguém genial. Poty não tinha televisão e nem rádio em casa, em compensação era um voraz ''devorador de livros''. ''Ele lia tudo. Uma vez, quando ele estava no hospital comprei um exemplar do livro sobre a vida de Assis Chateubriand, ''Chatô'', de Ruy Castro. Ao pegar o livro de cara já me deu a sinopse da história, ou seja, antes mesmo de ser lançado ele já sabia o que seria a obra'', relembra.
Essas e muitas outras histórias do mundo de Poty estão na mente de Lenzi que, na real, é o verdadeiro ''continuador'' de um trabalho feito pelo artista. Há alguns anos, em uma das poucas entrevistas que concedia, Poty chegou a dizer que Adoaldo Lenzi Júnior, filho de Adoaldo, seria seu sucessor. Mas Júnior atualmente está afastado das artes. Trabalha em um cargo público na cidade de Santa Helena, noroeste do Estado. Quem continua compondo vitrais, painéis e mosaicos é o pai. Aquele que foi amigo de Poty até o último dia de sua vida.
Na parede do ateliê de Lenzi uma pequena lembrança do último trabalho que fizeram juntos. A réplica assinada pelo artista de um painel que hoje está no Hospital de Clínicas, em comemoração ao milésimo transplante de medula óssea realizada naquele lugar. Horas depois de assinar aquele pequeno pedaço de azulejo, Poty entraria em coma e sairia de cena. ''Para mim esta obra foi a mais marcante. Teve muita emoção'', completa Lenzi.
Com tantas histórias e obras de Poty e em razão deste ano ser comemorativo ao 80º aniversário de seu nascimento, a Fundação Cultural de Curitiba abriu a mostra ''Poty em Evidência'', no Centro Cultural Portão. Parte do acervo que está lá foi doada pelo próprio artista, uma mostra de sua generosidade e uma comprovação de que ele realmente se preocupava em levar seu trabalho ao público.
As gravuras em exposição até o dia 18 de julho relatam uma faceta universal que, segundo a curadora Nilza Procopiak, se aproximam de desenhos impressionistas de grandes nomes como Edgar Degas, Picasso e do litógrafo e caricaturista Honoré Damier.
Vale a pena entrar no mundo de Poty. Primeiro dê uma volta pela cidade e depois complete o pacote indo ao museu. Se o artista fosse vivo certamente apreciaria essas visitas como presente de aniversário.
Serviço
- Mostra ''Poty em Evidência'', no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (Centro Cultural Portão na Avenida República Argentina, 3.430). Aberta à visitação até 18 de julho. De terça a quinta-feira, das 13 horas às 19 horas. Sextas-feiras, das 13 horas às 21 horas e aos sábados, domingos e feriados das 15 horas às 19 horas.


