Curitiba - Durante as últimas seis décadas ele manteve quase a mesma rotina: entrava em seu ateliê às 9 da manhã e só saia no início da noite. Produziu centenas de pinturas em técnicas variadas, desenhos em pastel e mais recentemente esculturas em mármore. O resultado dessa produção incessante é um dos maiores acervos de um artista brasileiro que o País já viu. Parte dessas obras, assinadas pelo paulistano Arcangelo Ianelli, podem ser vistas a partir de hoje, no Museu Oscar Niemeyer. O próprio artista, que está com 84 anos e ainda mantém o mesmo hábito, abrandado por sequelas de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido há pouco mais de três anos, participou da montagem ontem. A exposição ''Ianelli - Os caminhos da figuração'', tem curadoria e seleção dos filhos do artista, Katia e Rubens Ianelli.
As obras expostas seguem ordem cronológica e reúnem trabalhos que revelam claramente a inclusão do artista na poética figurativa, gênero que marcou sua carreira a partir da década de 70. Divididas em cinco salas do museu, as 77 obras da coleção particular são datadas do final da década de 40 até o final da década de 60, exatamente quando começa essa fase figurativa adotada por Ianelli. Esse passeio pela obra do artista é também uma orientação para o público de como Ianelli trilhou esse caminho.
Na primeira parte da exposição, chamada de ''Primeiros tempos'' é possível ver os seusa esboços iniciais, seguidos de uma fase em que ele se dedicou a pintar casarios e retratos (dos filhos, da família e de amigos) e depois marinhas e portos. Na terceira sala, chamada de ''Sala de Transição'' estão agrupadas algumas obras em que o artista começa a se desprender do figurativo e mergulha, ainda que superficialmente, na geometria. Obras dessa fase estão concentradas no final da década de 50. ''Mas ele só assume mesmo essa escolha no final da década de 70'', diz Katia.
Ela conta que a seleção dos quadros da mostra, que esteve em São Paulo há dois anos com acervo bastante semelhante, foi feita baseada numa cronologia temporal, mas não houve rigidez nesse critério. ''É uma retrospectiva da figuração'', resume. Essa é a terceira vez que obras de Ianelli são expostas em Curitiba. Na última década pinturas do artista foram mostradas no Museu Contemporâneo e na Casa Andrade Muricy, mas é a primeira vez que um agrupamento do acervo particular da família é montado de forma a permitir uma compreensão maior do caminho escolhido por Ianelli.
O artista nasceu em 1922, em São Paulo, e começou a pintar na adolescência. Em mais de 60 anos de carreira acumulou diversos prêmios nacionais e internacionais e obras suas estão espalhadas em museus do Brasil e exterior, como nos Estados Unidos, Japão e México. Grande parte do seu acervo está em poder da família, que estuda a possibilidade de transformar um espaço no bairro Paraíso, em São Paulo, em um instituto ou fundação com o nome do artista. A iniciativa, adianta Katia Ianelli, seria particular, e não vinculada ao governo ou município.
Atualmente, Ianelli ainda mantém a rotina diária em seu ateliê, também como parte da terapia para recuperar-se. O acidente aconteceu há três anos e meio no dia da abertura da única exposição em que ele mostrou suas esculturas em mármore, na Pinacoteca de São Paulo. Um projeto de uma nova mostra desse acervo também está em andamento, mas sem data de conclusão.

Serviço:
- ''Ianelli - Os Caminhos da Figuração. Abertura hoje, às 19 horas, no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999). De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00.

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