Curitiba - A principal fonte de recursos para a cultura no Brasil está no marketing. Essa é a constatação de Paulo Herkenhoff, curador da mostra ''Tomie Othake na Trama Espiritual da Arte Brasileira'', que abre hoje à noite no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Para um dos mais conceituados profissionais em curadoria no Brasil e no exterior, a publicidade e a iniciativa privada são hoje os propagadores da arte. Uma opinião que aponta para controvérsias quando o dinheiro ''investido'' vem através da isenção de impostos que transforma, automaticamente, o dinheiro aplicado em dinheiro público e não privado.
O curador esteve ontem pela manhã no MON. Herkenhoff falou da Lei Rouanet, de incentivo à cultura, e da necessidade da descentralização dos recursos que, durante muitos anos se concentraram no eixo Rio-São Paulo. ''A descentralização é extremamente positiva para a cultura nacional'', afirmou. De acordo com Paulo Herkenhoff, a iniciativa privada tem demonstrado mais interesse em investir em cultura nos últimos anos. ''Os bancos, principalmente, têm demonstrado esse interesse.''
Há um ano, o curador dirige o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, depois de passar longa temporada no Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA). Além de responder pela curadoria da exposição de Tomie Othake, Herkenhoff desenvolve atualmente um trabalho de recuperação e restruturação do museu carioca. Ele também pretende ampliar o acervo do MNBA a partir de aquisições e recebimento de doações de obras modernas e contemporâneas, de artistas importantes como Aleijadinho, Anita Malfatti e Alfredo Volpi.
Herkenhoff pretende levar obras paranaenses para o MNBA. Ele esteve recentemente com o governador Roberto Requião (PMDB) discutindo a essa possibilidade: ''O governador demonstrou muito interesse e disse que é fundamental esta parceria, contando que a arte no Paraná está passando por um processo de ajustamento. O Paraná tem grandes talentos, e, isso, o próprio MON precisa exaltar'', afirmou. Para Herkenhoff, o MON é um lugar de excelência, mas deveria evitar entrar nos problemas dos outros museus. ''O MON deve se aperfeiçoar para ser o espaço que viabilize o destaque da arte paranaense no cenário nacional e internacional.''
''Sou brasileiro de corpo e alma e amo a cultura daqui, como a Tomie Ohtake'', declarou Herkenhoff após relatar sua experiência como curador no Museu de Arte Moderna de Nova York. ''Lá, eu trabalhei muito com a arte latino-americana, e também com outros estilos. Foi uma importante experiência, muito válida, mas, amo o Brasil. Fui convidado para ficar mais cinco anos, mas recusei o convite'', contou.
Herkenhoff destacou outras experiências profissionais que tiveram muita importância na sua carreira. Para ele, dirigir o Instituto Nacional de Artes Plásticas, nos anos 80, foi uma delas. ''Quando dirigi o Instituto, eu tive muito contato com a arte paranaense, foi muito interessante. Também, trabalhar com Tomie, está sendo uma experiência única.''
Herkenhoff conhece Tomie Ohtake há muitos anos. A mostra que será aberta hoje à noite foi fruto de uma amizade antiga, com muitas semelhanças. ''Ela (Tomie) também é amante da cultura brasileira e contribuiu para o seu avanço. Por isso o título ''Na Trama Espiritual da Arte Brasileira''. Segundo o curador, Tomie tem uma vida muito ativa, mesmo com os seus 90 anos. ''Ela é uma pessoa admirável, e está sendo extremamente gratificante trabalhar com a 'dama das artes plásticas brasileiras', que construiu sua carreira ao longo dos seus últimos 50 anos.''
Herkenhoff trabalhou quase um ano em cima da mostra, buscando as semelhanças entre as obras de Tomie, seja no traço, na cor ou no tema, com outros artistas de peso como Segall, Volpi, Aleijadinho, Tarsilla do Amaral, e outros.
Para agradecer e homenagear Curitiba, Tomie pintou um quadro que reproduz o olho do MON, em tons de amarelo e alaranjado, que poderá ser visto hoje. O MON foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Tomie e Niemeyer trabalham juntos em outro projeto. A pintota japonesa naturalizada brasileira vai fazer uma obra, em forma de concha, para o teatro do novo Parque do Ibirapuera, em São Paulo, idealizado por Niemeyer. O quadro chegou ontem pela manhã ao museu. Segundo Herkenhoff, a tela veio ''secando'' no trajeto até a capital.
As próximas exposições já confirmadas para o MON são as 92 gravuras de Rembrandt e uma mostra de cerca de 30 tapeçarias. A exposição das gravuras é fruto de uma parceria com o Museu Casa de Rembrandt, em Amsterdã, na Holanda. As tapeçarias são do Museu de Belas Artes Petit Palais, em Paris, na França. As exposições estão previstas para o mês de julho.

Serviço: A mostra ''Na Trama Espiritual da Arte Brasileira, de Tomie Othake, com curadoria de Paulo Herkenhoff, abre hoje à noite no Museu Oscar Niemeyer (MON) em Curitiba. A exposição fica aberta ao público até o dia 27 de junho.

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