VISUAIS - O 'pai' dos totens do Memorial
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segunda-feira, 21 de agosto de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A obra de Paulo Menten é um universo particular, onde o artista plástico é o único habitante, rodeado por uma constelação de gravuras e pinturas radiantes cujo sol é a inspiração. ''Moro aqui no meu ateliê e na Rua Pernambuco, mas fico mais aqui porque lá em casa, eu não tenho nada para fazer'', comenta Menten ao mostrar a latitude e longitude do seu mundo lírico, que explode no ateliê, revelando os contornos da alma do artista, que no próximo ano completará 80 anos de idade.
O calendário da vida do gravador, crítico de arte, que já escreveu para a Folha, e poeta, que estreou no ano passado, com o lançamento do primeiro livro de poesia, assinala o espaço que ocupa nas artes londrinense ao ser escolhido para ilustrar os tótens do ''Memorial do Pioneiro'', que está sendo construído em frente à Concha Acústica. ''São 15 gravuras. Desse total 14 representam Londrina antiga. Numa delas faço uma homenagem ao índio'', afirma Menten.
As xilogravuras da série do autor, que homenagearão os colonizadores, foram criadas ao longo de 25 anos. As gravuras selecionadas para o Memorial estão ganhando um banho de um plástico especial, que imita o bronze e tem mais durabilidade.
Os sete mil amores do artista plástico por Londrina na série explodem no cotidiano da cidade de rostos anônimos e de casas de madeiras e se repartem em mulheres, que levam no corpo a assinatura de Menten, que afirma que o desenho delas é para ser lido como poesia.
Essa Londrina de alma feminina, da qual o artista paulistano conhece todos os contornos, beijou Menten, dando-lhe as boas-vindas, muito antes de trocar São Paulo pelo interior paranaense. ''Nem eu sei direito porque deixei São Paulo. Vivia alguns problemas de família e, talvez, estivesse querendo me isolar do movimento cultural paulistano. Porém, morro de saudade da minha terra natal'', confessa Menten, acrescentando que, antes de se mudar para Londrina, em 1982, já havia se enamorado da jovem cidade. ''Para alguns que dizem que não tenho uma ligação maior com Londrina, questionando o fato até de ter morado, anteriormente, em Cornélio Procópio, digo que o meu primeiro contato com a cidade vem de 1972. Na época, eu era secretário do subgerente do extinto Banco Comind, Fernando Costa e Silva, conhecendo muitos fazendeiros de café londrinenses'', ressalta o artista.
Autodidata, Menten deixou que a mão de outro mestre da gravura, o paulista Lívio Abramo (1903-1992), tracejasse o início de sua carreira nas primeiras aulas da arte. ''Foi Abramo quem me ensinou a segurar com precisão as ferramentas, o que considero o mais importante na gravura'', diz Menten, que também deu a sua contribuição para a arte, já que dentro das várias técnicas existentes criou algumas especificações.
Com essa mão inventiva pousada sobre o ombro de seu talento, o artista multiplicou a monotipia, criando o que chama multitipia, conseguindo variar as provas, o que resulta numa variedade maior de tonalidades dos trabalhos.
Menten lembra que a técnica lhe deu condições de realizar 60 reproduções de um desenho de Picasso. ''Alguns questionam essa possibilidade da gravura. Porém, essas mesmas pessoas são capazes de comprar um automóvel, que a gente vê aos milhares pelas ruas por um preço exorbitante. Isso é preconceito'', argumenta Menten, mestre que também traçou o caminho para outros gravadores londrinenses.
O artista considera que as artes visuais de Londrina já formaram um movimento maior e de mais qualidade e que, atualmente, muitos são obrigados a buscar outros centros porque a cidade não consome o que produz, optando pelo provincianismo de importar cultura. ''Londrina valoriza muito a arte de espetáculo, não auxiliando as artes de raiz. Hoje até no teatro, os bons diretores foram embora da cidade. Como política pública, a administração tem que dar trânsito para a arte sem interferir no processo para que a criação frutifique'', avalia.
Influenciado pelo expressionismo alemão, Menten diz que chega sempre a um novo trabalho, caminhando em segurança pela autocrítica da obra.
As informações vão se transformando em seu espírito, que no vigor de 80 anos de produção, encontra fôlego para pretender lançar ainda cinco livros inéditos de poesias.
Aliás, as letras são um dos sete mil amores do artista, que na infância tinha dúvidas se queria fazer poemas com traços ou palavras. Ao se decidir pelo primeiro amor, a arte visual, Menten fecundou o universo imenso de sua obra.
''Criei esse mundo próprio e, muitas vezes, desconhecido, diferente do que é popularizado pela mídia, que não dá abertura para trabalhos originais'', conclui Menten, avaliando o quanto o reconhecimento tem andando sobre o seu trabalho.


