VISUAIS - O ofício da arte
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terça-feira, 28 de setembro de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Quase todos eles desde a inauguração do Museu de Arte de Londrina, em maio de 1993, não se encontravam aqui na cidade. Na época, o grupo de renomados artistas doou peças para o acervo do museu, contribuindo assim com a cultura local. Agora, mais de dez anos depois, eles voltaram a se reunir, mas desta vez para participar da abertura da vernissage da Galeria Bahiarte, na última sexta-feira à noite, durante a Arqui.Tec. O evento - iniciado no dia 23 - acontece até o dia 3 de outubro, na chácara de Ana Carlota Almeida (Rua Flávio Luz, 30 às margens do Lago Igapó, paralelo à Av. Harry Prochet), e pode ser conferido das 15 às 22 horas. Quem for ao local, também poderá apreciar o Jardim de Esculturas, repleto de peças modernas e arrojadas de artistas reconhecidos internacionalmente. Cleber Machado, Rubens Gerchman, Caciporé Torres, Cláudio Tozzi, Aguillar, Carlomagno, Gagliastri e Dolly Moreno são alguns dos artistas que vieram prestigiar a vernissage. Em entrevista à Folha 2, alguns deles comentaram sobre a arte contemporânea brasileira, entre outros assuntos, e a importância das iniciativas culturais.
Há 30 anos no Brasil, a escultora egípcia, naturalizada americana, Dolly Moreno, disse que foi aqui que o seu trabalho começou a ser valorizado. Refugiada na França, após ter sido expulsa com a família do Egito devido à invasão muçulmana, contou que se espantava com a maneira como os franceses reagiam à sua arte. ''Eles sempre queriam saber com quem estudei. É diferente do brasileiro, que fica mais atento à emoção que a obra de arte passa para ele antes de decidir pela compra'', disse Dolly. Ela também morou nos Estados Unidos e comentou que lá a reação não era muito diferente da dos franceses. ''Foi só depois que vim para o Brasil que o meu trabalho ganhou destaque no exterior; o campo de trabalho aqui é bem maior'', afirmou. Dolly sempre opta pelo aço em suas criações. Uma de suas peças que está no Jardim de Esculturas, com 1,50 metro, representa, segundo a sua concepção, a família e tem na figura feminina a base de sua sustentação. Ela destaca que a instabilidade que vivenciou no período do exílio marcou a sua manifestação artística e que suas esculturas sempre estão a ponto de se quebrar, mas não o fazem.
O pintor Claudio Tozzi trouxe para Londrina um processo criativo metódico e objetivo em que utiliza ícones visuais como parafusos, escadas, fragmentos de objetos, espaços urbanos e os descontrói, captando seus aspectos essenciais, revelando-se um fazer artístico de rigor formal que transita por vertentes construtivas e conceituais. Na sua avaliação, refletindo sobre a arte contemporânea, está havendo uma valorização excessiva das instalações de vídeo e fotografia, minimizando a importância da pintura. ''Todas as artes têm o mesmo peso. Nas últimas bienais houve um exagero de instalações e agora a pintura está passando por um processo de revalorização''. Tozzi também elogiou o que chama de ''despolinização'' artística, referindo-se às iniciativas cada vez maiores de se deslocar a arte do eixo Rio-São Paulo. ''As pessoas estão cada vez mais interessadas e é importante investir em exposições itinerantes e publicações sobre arte.''
''Alethea Bellefran'' é o nome da escultura de aço, de 1,40 metro, que o escultor Cleber Machado está expondo em Londrina. O nome é uma homenagem à uma ex-namorada londrinense, que hoje mora nos Estados Unidos. Outra escultura dele que está aqui chama-se ''Ruptura''. Em Londrina pela quarta vez, Machado falou da importância do evento, que congrega trabalhos modernos de vários artistas. ''Isso promove a vida cultural da cidade, melhora a qualidade de vida e da informação'', ressaltou. Sobre ser artista no Brasil, Machado foi enfático: ''quem faz arte e sobrevive é como atravessar o deserto e não morrer. As pessoas têm que ter obsessão, ser persistentes. Arte boa é difícil em qualquer lugar. A obra não pode ser 'lambida', tem que atrair por algum motivo'', afirmou. Autodidata, Machado considera qualquer escola de arte ''uma bobagem''. Sobre a pintura digital, ele vê com bons olhos essa nova técnica. ''Desde as pirâmides, o mundo vem se reformulando, evoluindo, e acho essa técnica interessante. O importante é que a informação cultural seja boa'', pontuou.
O pintor Carlomagno sempre foi conhecido por mesclar o surreal com realismo em seus quadros, mas desde o final de 2003 está trabalhando com o conceito abstrato-geométrico e está tendo um bom retorno do mercado. ''Quando se faz um trabalho sério, com amor e critérios, o artista sempre encontra espaço'', avaliou. Na sua opinião, atualmente o Paraná é o melhor mercado consumidor de arte, decorrência do alto nível cultural do estado. ''Sou carioca, mas, infelizmente, o Rio de Janeiro está falido para o mercado de artes. Há falta de preparo e pouca criatividade'', criticou o artista, que também é graduado em educação, arquitetura e engenharia.
Serviço:
- Arqui. Tec, em Londrina. De 23 de setembro a 3 de outubro. Das 15 às 22 horas, na Rua Flávio Luz, 30 - às margens do Lago Igapó, paralelo à Av. Harry Prochet). Entrada: R$ 5,00.


