VISUAIS - Memória em madeira
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de agosto de 2004
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Elas tentam resistir ao tempo e aos avanços da modernidade. Às vezes são simplesmente esquecidas ou passam despercebidas na paisagem urbana. Revelam o que sobrou de uma cidade de madeira, iniciada há 70 anos e que, nessas poucas décadas, perdeu o foco. Mas não perdeu a memória, nem os personagens, muito menos as histórias que marcaram a história da cidade.
Com esse olhar o repórter fotográfico Carllos Bozelli, da Folha, fez um resgate da ''Arquitetura de Madeira na Zona Urbana de Londrina'', em livro que será lançado hoje, às 20 horas, no Museu Histórico Padre Carlos Weiss. Para o lançamento Bozelli montou uma exposição com 30 fotos.
Mais de 200 fotografias coloridas mostram fachadas, interiores e detalhes de casas, estabelecimentos comerciais e outras edificações construídas em madeira na área central, Vila Brasil, Vila Casoni, Vila Portuguesa e em outras localidades. São fotos que revelam as construções de um outro tempo, sufocadas por edificações modernas. Mas que preservam suas características, ainda que discretamente. Novas, velhas, destruídas, reformadas. Sem cor, só em pedaços. Com fortes grades, alarmes e cores modernas. Com generosas janelas e espaçosas varandas. Casas de vó, com jardim, cadeira de balanço e muitas fotos na parede.
Elas quase não existem mais. Mas são portas abertas para a memória. Guardam histórias de vida, de amor, de trabalho. Guardam alegria e tristeza. É só perguntar à dona Olinda, dona Ophelia ou dona Braulina. Como seo Hélio e dona Maria, elas têm muito o que contar. Guardam aventuras e segredos. A velha pastelaria, a máquina de arroz, o bar da madrugada, a loja do alfaiate, o templo budista.
Com as fotografias, Carllos Bozelli oferece também a possibilidade de se imaginar ou recriar histórias. ''O livro mostra as formas das pessoas habitarem suas casas, o orgulho delas com relação a isso, a valorização, a lembrança do tempo em que tudo foi construído'', conta o fotógrafo, que visitou mais de 200 construções. ''As pessoas têm muita memória e se orgulham de onde vivem''.
O projeto, aprovado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic - demandou seis meses de pesquisa e execução. Foram utilizados 60 filmes coloridos, que resultaram em mais de 2100 fotogramas. Bozelli contou com a parceria de três estagiárias do curso de Arquitetura e Urbanismo de instituições locais Denise Lezo, Elisa Zanon e Lívia Fernanda Idehira , além do apoio de Vanda de Moraes, diretora de Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria da Cultura de Londrina, e da arquiteta Juliana Suzuki, que incentivaram e acompanharam o projeto. A produção é de Denise Gentil e a coordenação editorial, de Christine Vianna.
Bozelli conta que o trabalho sobre as casas de madeira começou em 1999, com uma mostra acadêmica. ''Percebemos ter um bom material e a Vanda de Moraes sugeriu que fizéssemos um livro'', diz. O primeiro resultado foi ''A Arquitetura de Madeira na Zona Rural de Londrina''. ''A repercussão foi legal e resolvemos estender a idéia para a zona urbana''.
Além do registro fotográfico, o livro traz um estudo arquitetônico que mostra a tipologia das construções, possibilitando uma maior compreensão sobre a ocupação dessas residências.
Para Vanda de Moraes, que assina a apresentação do material, o livro trata de permanências. ''Reconhecer estas permanências como parte de nossa bagagem cultural é o primeiro passo para a necessária preservação destes monumentos do homem comum''.
Serviço:
- Lançamento do livro ''Arquitetura de Madeira na Zona Urbana de Londrina'' (Atrito Art Editorial). Hoje, às 20 horas, no Museu Histórico de Londrina (Rua Benjamin Constant, 900). 148 páginas, em papel couchê fosco. Preço: R$ 50,00. Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura e Quadra Construtora.


