A abertura da exposição ''Cinco Artistas do Engenho de Dentro Cinquentenário do Museu Imagens do Inconsciente'' marca hoje, em Londrina, o lançamento do evento ''Um Olhar Incomum''. Além da mostra, dois espetáculos teatrais, um workshop e uma mesa-redonda integram o Projeto Imagens do Inconsciente, idealizado por Liliane Silva e José Maria Pereira Júnior.
A exposição traz 59 obras de cinco artistas que passaram pelos ateliês de pintura e modelagem da Seção Terapêutica Ocupacional do Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. A instituição foi criada em 1952 pela psiquiatra Nise da Silveira que, inconformada com os métodos violentos de tratamento psiquiátricos eletrochoque, coma insulínico, lobotomia , encontrou na Terapêutica Ocupacional uma forma de tratamento para os pacientes esquizofrênicos. Em 1946, ela já havia fundado o Serviço de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro hoje Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira.
O diretor do Museu Imagens do Inconsciente e curador da exposição, Luiz Carlos Mello, está em Londrina para acompanhar o início do evento. Durante 26 anos, Mello foi colaborador de Dra. Nise no Museu e, depois da morte da psiquiatra em 1999, ele e uma equipe deram continuidade ao projeto. O curador explica que para montar a exposição foi feita uma seleção de obras sob o ponto de vista artístico. Segundo ele, o reconhecimento pelos críticos de arte do valor estético desses trabalhos, cujos autores viveram confinados em hospitais psiquiátricos, derrubou preconceitos em relação à loucura.
''Existe uma idéia de que o louco perde a criatividade. No entanto, ele mergulha em níveis mais profundos do inconsciente. Claro que nem todos são artistas, mas existem casos que revelam gênios. Um deles é Emygdio de Barros, um dos artistas da mostra'', comenta Mello. Internado por 23 anos como paciente crônico, ele é um mistério da pintura brasileira.
Sem nunca ter pintado antes, esse carioca nascido em 1895 atingiu desde o início um alto nível artístico, que poderá ser conferido na série de aquarelas realizada na década de 50 e exposta na mostra. Ele pintou até sua morte, em 1986, aos 92 anos. Cerca de 3.300 obras do artista estão no Museu.
Quem deixou um impressionante número de trabalhos no acervo foi Carlos Pertuis, nascido no Rio em 1910. Em três décadas, ele produziu nada menos que 21,5 mil trabalhos entre desenhos, pinturas, modelagens, xilogravuras e escritos, até sua morte em 1977. Na exposição poderão ser vistos trabalhos da série ''O Circo'', de 1950, em que o artista funde elementos do estilo figurativo com o abstrato.
Considerado pela crítica um dos primeiros concretistas brasileiros, Arthur Amora está representado na exposição por trabalhos criados a partir de um jogo de dominós. Ele desenvolveu uma temática em preto-e-branco, criando uma noção geométrica de movimento e de jogo. Seus trabalhos foram pintados em óleo sobre tela e nanquim sobre papel entre 1949 e 1951.
O baiano Geraldo Aragão, nascido em 1929, considerava-se um surrealista. Chegou ao Centro Psiquiátrico em 1956 e, embora nunca tivesse pintado, passou a frequentar o ateliê de pintura e encadernação. Mas ele também aprendeu a fotografar e os registros feitos na década de 50 são o ponto alto da sua expressão artística. Nessas fotos ele capta paisagens e cenas da cidade ou formas abstratas, sempre buscando o contraste entre luz e sombra.
A escultura também está representada na exposição pela obra do alagoano Abelardo Corrêa. Nascido em 1914, era desenhista por profissão. Frequentou aulas no Liceu de Artes e Ofícios. Tornou-se uma espécie de artesão e dava aulas os colegas de ateliê. Suas criações são placas modeladas em alto relevo, com temáticas tradicionais e cristãs, que serão mostradas em Londrina. Corrêa permaneceu internado no Hospital Pedro II de 1949 até sua morte, em 1982.
Todos os artistas iniciaram seus trabalhos como parte da proposta terapêutica, no entanto, ficou marcada sua representatividade no mundo das artes. ''Essa exposição é sobre o ponto de vista artístico, mas no Museu também é possível conhecer os trabalhos feitos sob ponto de vista científico'', afirma o curador.
O Museu Imagens do Inconsciente completou 50 anos em maio de 2002. Luiz Carlos Mello conta que atualmente o acervo da instituição tem mais de 350 mil obras, o que o torna o maior do mundo nesse gênero. ''Existem coleções semelhantes em vários lugares do mundo. Mas a daqui também é a mais diferenciada do ponto de vista científico. Essa produção permite penetrar no mundo dos esquizofrênicos'', explica. ''Temos exposições didáticas, por exemplo, que mostram a evolução de casos clínicos dos indivíduos e, no final, documentários científicos sobre a produção dos pacientes''.
São imagens inquietantes, estudadas em diferentes áreas do conhecimento humano, com o intuito de decifrar os misteriosos processos que se desdobram no interior de indivíduos que vivenciaram um profundo mergulho no inconsciente.
O trabalho do Museu faz parte da história da reforma psiquiátrica no País e vem exercendo influência no processo de transformação dos espaços e métodos terapêuticos. Hoje é um centro de referência na área da Saúde Mental.
®MDNM¯ Nos 50 anos de funcionamento, o museu vem aumentando a cada dia seu acervo. ''É a idéia de museu vivo, que permanentemente recebe obras dos ateliês de pintura e modelagem'', diz Mello. Para o ano que vem está prevista a reforma e a ampliação do espaço num projeto da prefeitura do Rio de Janeiro.

SERVIÇO:
- ''Cinco Artistas do Engenho de Dentro'' exposição que comemora o Cinquentenário do Museu Imagens do Inconsciente, do Rio de Janeiro. Abertura: hoje, às 20 horas, na Casa de Cultura da UEL (Rua Mato Grosso, 537), em Londrina. Prossegue até dia 28, das 10 às 19 horas. Agendamento de visitas monitoradas pelos telefones (43) 3322-0913 ou 3323-8562. Patrocínio: Promic. Apoio: Aero Park, Àmen e Casa de Cultura da UEL.

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